Valter Campanato/Agência Brasil
Valter Campanato/Agência Brasil

‘Impasse fiscal pode potencializar disparada do dólar’, diz economista da FGV

Para economista, reforma da Previdência será feita em 2019, seja quem for o presidente eleito

Entrevista com

Manoel Pires, economista, coordenador do Observatório de Política Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia (

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 04h00

BRASÍLIA- Coordenador do recém-criado Observatório de Política Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), o economista Manoel Pires alerta que o problema fiscal no Brasil poderá amplificar a crise no dólar. Pires disse que, se o cenário externo de incertezas aumentar, a questão fiscal será vista como urgente para o Brasil reduzir a sua vulnerabilidade. “A depender da incerteza eleitoral, os efeitos da alta do dólar podem ser potencializados pelo impasse fiscal”, adverte Pires, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Para ele, quem ganhar a eleição, seja de esquerda ou direita, e não fizer reforma do Orçamento, perde a capacidade de governar. Veja a seguir os principais pontos da entrevista:

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O País corre risco de uma crise no câmbio? 

O cenário externo mudou. Quando uma economia está muito fraca, o País pode ter uma pequena depreciação cambial com impacto econômico grande. Quando a economia está menos frágil, o país pode ter uma depreciação na mesma magnitude, mas com impacto econômico menor.

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O Brasil tem capacidade de defesa? 

A nossa grande vulnerabilidade hoje é fiscal. Nossos indicadores externos de inflação e juros estão bastante favoráveis. A discussão sobre crise está muito mais associada à questão fiscal num momento de eleição que pode trazer um candidato com um programa menos contundente nessa área.

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Um candidato que não apresente soluções fiscais pode agravar o problema da alta do dólar?

Uma candidatura que não traga soluções para o problema fiscal ou não coloque como prioritário na sua agenda pode correr o risco de o Brasil passar por um reprecificação de risco para a economia. Ou seja, haverá menos recursos disponíveis ao País. O problema fiscal amplifica o efeito da crise externa. E a depender da incerteza eleitoral, os efeitos da alta do dólar podem ser potencializados pelo impasse fiscal.

O País corre risco de viver uma crise maior depois das eleições? 

Essa é uma possibilidade. Mas a hipótese que eu trabalho é que a gente tenha uma reforma da Previdência no primeiro ano do próximo governo.

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Seja quem for o eleito? 

Sim. Por uma razão muito simples. Quem não fizer reforma do Orçamento perde capacidade de governar. Perde o controle do Orçamento. Será mais também uma razão política.

Mesmo se ganhar um candidato de esquerda que diz hoje que não quer, fará a reforma da Previdência? 

Sim. A esquerda já conseguiu (no passado) apoio. O desafio do Brasil nessa agenda de reformas é menos econômico e mais político para construir uma liderança capaz de avançar. No ambiente político que nós temos, um candidato de direita não tem uma dificuldade muito diferente do que de esquerda de fazer a reforma.

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Não haverá a sensação de que não cumpriu a promessa de campanha? 

Não acredito na hipótese de um estelionato eleitoral ou de um debate eleitoral tão fraco como vimos na eleição de 2014. Uma candidatura de esquerda ou de direita pode não defender a reforma da Previdência, mas não vai descartar a necessidade de enfrentar o problema.

Nos últimos dois anos, o governo avançou muito ou pouco na questão fiscal? 

Andamos muito no Orçamento financeiro por conta da redução dos juros e da devolução dos recursos do BNDES. Esse foi um ganho importante. E andamos menos no resultado primário das contas públicas

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