Tasso Marcelo | Estadão
Lucro do setor de siderurgia caiu mais de 75%. Tasso Marcelo | Estadão

Impasse na reforma trava investimentos

Incerteza na articulação política da Previdência suspende projetos e reflete dúvidas sobre avanço da economia, dizem economistas

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2019 | 04h00

À espera do desfecho das discussões sobre a reforma da Previdência, muitas empresas projetaram a melhora da economia e a retomada da expansão de seus negócios neste ano. “O ministro Paulo Guedes, da Economia, ao dar como certa a aprovação da reforma, criou uma expectativa no mercado, que ainda não foi concretizada”, diz Istvan Kasnar, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ebape).

Segundo Kasnar, as indústrias ainda sofrem impacto dos erros da política econômica dos últimos anos e podem ter seus resultados impactados por decisões que estão “na promessa”, como o caso da reforma da Previdência e o choque de energia barata. “Ao considerar a reforma da Previdência uma bala de prata para a recuperação da economia, o governo esquece que tem toda uma agenda maior de reformas que deve ser colocadas em prática”, diz ele, referindo-se ao déficit das contas públicas.

O ambiente de incerteza não contribui para que as empresas se animem a tirar investimentos do papel, segundo Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim. Na dúvida sobre as reformas e a recuperação econômica, muitas companhias estão jogando para 2020 os projetos deste ano.

Vale e Petrobrás

Enquanto a maior parte dos negócios foi afetada pela crise da economia doméstica, outros melhoraram a rentabilidade, como energia elétrica, eletroeletrônicos e locação de veículos.

Alguns, porém, foram castigados por eventos específicos. O caso mais emblemático é o da mineradora Vale. O resultado da empresa foi afetado pela tragédia do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, no dia 25 de janeiro, que resultou em 238 mortos até o momento. A crise da Vale acabou impulsionando os preços do minério de ferro e a própria mineradora foi beneficiada pelo movimento.

Diante dos altos custos para tentar minimizar o problema que causou, a Vale registrou prejuízo de R$ 6,4 bilhões, ante um lucro líquido de R$ 5,1 bilhões no mesmo período do ano passado. Os dados financeiros da Vale, no entanto, foram excluídos do levantamento da Economática – que mostrou uma queda de 5,7% no lucro líquido das empresas nacionais – porque distorceria os resultados, ampliando a retração.

Já a Petrobrás fechou o primeiro trimestre com lucro líquido de R$ 4,03 bilhões, resultado 42% menor que R$ 6,96 bilhões do ano passado. O setor de óleo e gás, que foi um dos que ajudaram a impulsionar economia entre 2004 e 2013.

O dólar valorizado garantiu o resultado de parte das empresas exportadoras – como as ligadas ao agronegócio, por exemplo. Mas nem as exportadoras estão imunes a “solavancos”: as companhias de papel e celulose, por exemplo, foram afetadas nos primeiros meses do ano ao preço baixo da commodity no mercado internacional. A área fechou o primeiro trimestre com prejuízo acumulado de mais de R$ 1,4 bilhão.

Bancos

O setor financeiro desponta como a exceção. O lucro dos bancos saltou de R$ 17,3 bilhões, nos três primeiros meses de 2018, para R$ 21,2 bilhões, no primeiro trimestre deste ano. Esses dados também ficaram de fora do levantamento para evitar distorções no resultado.

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País em marcha lenta faz lucro das empresas diminuir 6% no 1º trimestre

Para especialistas, ganhos de boa parte das companhias foram afetados pela dificuldade em repassar alta de custos e refletem a frustração com a retomada da economia; levantamento considera lucro de 231 empresas com ações negociadas em Bolsa

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2019 | 05h46

A paralisia da economia afetou a rentabilidade das empresas listadas em Bolsa no primeiro trimestre. Levantamento feito pela consultoria Economática mostra que o lucro líquido de 231 companhias abertas totalizou R$ 20 bilhões, queda de 5,74% sobre janeiro a março de 2018. Os dados, que têm como base os balanços entregues até as 18h de quarta-feira, 15, excluem os bancos, a Vale, a Petrobrás e a Oi, por distorcerem os resultados.

“Criou-se uma expectativa grande no mercado financeiro de que a economia do País iria se recuperar com a troca de governo”, diz Istvan Kasnar, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ebape). “Essa retomada não se concretizou nos primeiros cem dias e ainda há incertezas para os próximos meses. A queda da rentabilidade das empresas refletiu, em boa parte, essa frustração de expectativas.”

Ainda que o faturamento das empresas tenha crescido nos últimos meses, boa parte das companhias de capital aberto teve suas margens de lucro afetadas por aumento de custos represados anteriormente, afirmou Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim. Para ele, as empresas ainda vão demorar a atingir os patamares pré-crise, de 2014. “Houve recuperação entre 2017 e 2018, mas boa parte das companhias ainda é afetada pelos choques de custos, como energia e efeitos cambiais, por exemplo”, diz.

Com uma das energias mais caras do mundo, a indústria tenta levar adiante a pauta da redução de preços no governo. O plano do “choque de energia barata”, anunciado pelo governo em março, que previa a redução em 50% no custo do gás natural, ainda não saiu do papel.

Além dos reflexos da crise que se estendem desde 2014, e da demora na aprovação de reformas estruturais, que causaram impacto na confiança de consumidores e investidores, o cenário internacional não tem ajudado.

A crise argentina, por exemplo, derrubou o saldo comercial brasileiro no primeiro quadrimestre. Segundo o Indicador de Comércio Exterior (Icomex), da FGV, a balança comercial com a Argentina passou de superavitária para deficitária em US$ 3,1 bilhões.

A Volkswagen, por exemplo, colocou em férias coletivas os funcionários das fábricas de São Bernardo do Campo e Taubaté (SP). O motivo foi a queda no consumo da Argentina, seu principal destino de exportações. Apesar de a montadora não ter capital aberto no País, a iniciativa afeta fornecedores, como siderúrgicas e autopeças.

a crise entre EUA e China derrubou o comércio internacional, avaliam os economistas. Segundo estimativa da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a perda potencial do País com a disputa é de cerca de US$ 30 bilhões.

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