Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Impasse no Orçamento agrava a incerteza fiscal, diz presidente do BC

Roberto Campos Neto diz que liberalismo é a solução para o Brasil e que ele e Paulo Guedes estão 100% alinhados

Entrevista com

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Duas coisas tiram hoje o sono do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto: a vacinação no Brasil, que vai ditar o ritmo de abertura da economia, e o risco de descontrole das contas públicas. Os dois fatores estão no radar do BC para a definição dos próximos passos da taxa Selic, os juros básicos do Brasil, que depois de cair para o patamar histórico de 2% ao ano, subiram para 2,75% para conter o avanço da inflação. Agora é o Orçamento que pode aumentar o risco fiscal e atrapalhar a condução da política de juros. A lei orçamentária foi aprovada pelo Congresso com despesas subestimadas e pode se tornar inexequível. Negociações estão em andamento entre governo e Congresso para a saída do impasse. “Se o Orçamento passar a percepção de que ele é inexequível, é um fator que vai preocupar o BC”, diz. Na conversa com o Estadão, Campos Neto defende o liberalismo como “a solução para o País” e diz que nunca houve um convite para substituir o ministro Paulo Guedes, uma especulação que circula no mercado de tempos em tempos.

O sr. já disse que o descontrole fiscal é o que lhe tira o sono, depois da ampliação das vacinas. O Orçamento federal com “maquiagem” agravou a insônia?

Eu demonstrei preocupação com os dois pontos. A vacinação é o que faz a economia abrir. Para o BC, é relevante ter uma estimativa de abertura da economia para traçar o nosso cenário. O segundo ponto é o fiscal (os gastos públicos). Olhando as curvas de juros do mercado, há um prêmio muito grande relacionado à incerteza fiscal (os investidores cobram mais caro para financiar o governo porque colocam em dúvida a sustentabilidade das contas públicas). Qualquer incerteza em relação ao Orçamento agrava a incerteza fiscal. Entendo que o Orçamento ainda não está fechado e estou acompanhando para ver qual é a informação que vai sair da negociação para usarmos nos nossos cenários.

Por que é importante esse olhar para a política fiscal?

É muito importante que a gente passe uma mensagem de credibilidade em relação a uma convergência fiscal à frente. Tivemos um desvio ocasionado pela pandemia, mas é muito importante mostrar uma consolidação fiscal. Quando olhamos a reação do mercado e dos agentes econômicos às notícias fiscais, é uma preocupação que está no topo da lista, é o que tem sido responsável por fazer o risco do Brasil ser elevado, diferenciado o País do resto dos países. Hoje, somos o País mais endividado do mundo emergente.

O Orçamento de 2021 acrescentou um ingrediente a mais nesse risco?

Se o Orçamento passar, a percepção de que ele é inexequível ou precise fazer algum tipo de suplementação de crédito para que atinja os números é um fator que vai preocupar o BC. É um fator que vai alterar o prêmio de risco fiscal que está embutido nas variáveis macroeconômicas e isso atrapalha a condução da política monetária (a calibragem da taxa básica de juros para o controle da inflação).

Há risco de essa pressão adicional de suplementação de gastos ser um caminho para o estouro do teto de gastos? 

Sempre existe uma preocupação relacionada ao estouro do teto de gastos (a regra constitucional que atrela o ritmo de crescimento das despesas à inflação). Mais do que o estouro em si, que é mais um símbolo, é se vamos conseguir passar uma mensagem de credibilidade. Ou seja, qual é o plano fiscal indo para a frente. Qualquer tipo de gasto extra vai causar aumento do prêmio de risco e influenciar a reação do BC.

O BC surpreendeu ao elevar os juros com uma dose mais forte que o esperado, e o dólar não baixou como se esperava. Por quê?

O BC não faz nenhuma política de juros olhando para o câmbio. O que importa é como o movimento do câmbio afeta a inflação. O movimento dos juros foi feito com os cenários que nós tínhamos. Na parte do crescimento, tínhamos boas notícias. O resultado do quarto trimestre tinha sido melhor que o esperado. Em janeiro, já tínhamos um número fechado, que é surpreendente levando em consideração que havia efeito menor do auxílio emergencial. Fevereiro, pelos dados preliminares, está aparecendo melhor. Já março, abril e uma parte de maio, entendemos que vai ter uma queda da atividade pelo agravamento da pandemia. Na parte inflacionária, o que tentamos comunicar é que tivemos um aumento grande da expectativa de inflação em relação a 2021. Grande parte se dá por fatores temporários, mas entendemos que teve uma contaminação da inflação através das cadeias (produtivas).

O Brasil não tem fundamentos sólidos para conviver com juro baixo, como o de 2% ao ano?

Os juros em 2% estavam dentro de um contexto de inflação e crescimento que não se realizaram. Entendemos que o Brasil ainda precisa de condições estimulativas. Ou seja, uma taxa de juros que estimule a economia. O BC não vai sair de onde está hoje para uma taxa neutra de juros (aquela adequada para estímulo de um País sem gerar instabilidade na inflação ao longo do tempo). O BC fará uma normalização da taxa parcial. Essa é a mensagem. Lembrando que não foram só os juros que serviram como estímulo. Fizemos um amplo conjunto de medidas, o que fez com que o crédito tivesse uma performance muito boa. Apesar de tudo que tem acontecido, nós revisamos a previsão de crédito em 2021 ligeiramente para cima. Na inadimplência, que é um fator que todos tinham preocupação, fomos surpreendidos com ela mais baixa do que imaginávamos.

O BC começou a construir o entendimento que, se reagir rápido e mais forte, o aumento total de juros poderá ser menor. Isso antecipa uma resposta mais agressiva na próxima reunião do Copom, como uma alta de 1,25 na Selic?

O que dissemos é que, a menos que as condições mudem de forma extraordinária, o que antecipamos é uma nova alta de 0,75 ponto porcentual. Num contexto que não se realizou e de inflação acima do esperado, com um processo de contaminação, acreditamos que fazer mais rápido significa que podemos antecipar e fazer menos no total. 

Críticos apontam que o BC deixou os juros baixos demais e acabou deixando o dólar e inflação escaparem...

É normal esse tipo de crítica. Vemos sempre opiniões muito distintas. Quando a gente estava lá rodando com previsão de crescimento bem negativa e existia expectativa de inflação de até 1,5%, teve uma crítica muito grande de que o BC deveria ter reduzido muito mais os juros. Agora, que há um recrudescimento da inflação, existe uma crítica de que os juros não sobem mais rápido. Nossa missão é sempre conduzir as reuniões com argumentos técnicos e tentar ser o mais transparente possível. Lembrando que o nosso processo de transparência tem aumentado. Temos divulgado muito mais os modelos do que era feito no passado para que os agentes econômicos tenham uma percepção clara do que passa na cabeça do Copom e o que estamos discutindo no dia a dia.

Como o BC se viu diante de uma encruzilhada de ter tido que subir os juros num cenário de retração da atividade?

Nossa meta primordial é a inflação. Na nossa linguagem deixamos claro que essa alta não vai influenciar fortemente o crescimento de 2022. O BC controla os juros curtos (a taxa Selic), mas tem um conjunto de outras variáveis que não estão no controle do BC, como a curva longa de juros, o câmbio e outras condições. É importante conduzir a política com credibilidade. É o que maximiza, ao longo do tempo, o processo onde a inflação seja menos volátil, mais estável e baixa.

Em Brasília, têm ocorrido muitos ruídos políticos que se misturam com a economia. Isso traz insegurança e pressiona o dólar e a inflação?

É mais difícil mapear os ruídos políticos. Como somos um órgão técnico, o que nós usamos é informação que é passível de ser quantificada no nosso dia a dia e o impacto na política monetária e na visão do futuro. O ruído político faz parte. É difícil comentar, porque não participo dessas decisões. Mas estamos sempre atentos a como isso impacta o prêmio de risco e as expectativas.

O Brasil precisa ter medo em relação à aceleração da inflação? 

Se olharmos os anos de 2014, 2015 e 2016, tivemos vários meses seguidos de inflação para cima e crescimento para baixo. O BC tem de agir para que essa contaminação não leve a uma mudança estrutural no patamar de preço. Não achamos que a inflação tenha possibilidade de sair do controle. Acreditamos que estamos com a análise correta em relação ao que tem acontecido e sempre enfatizando que não temos como atuar numa inflação de curto prazo. O nosso horizonte é um pouco mais longo. O importante é passar a mensagem de que o BC tem total autonomia, sempre entendendo que o nosso horizonte é um pouco mais longe do que o imediato. O Brasil tem sido diferenciado, porque além da alta das commodities (produtos básicos, como petróleo, grãos e minério de ferro), tivemos uma desvalorização do câmbio.

O BC, nos seus números, conta com uma retomada robusta no segundo semestre, assumindo que a vacinação vai decolar. 

Não cabe ao BC especular se as vacinas existem ou não. Pegamos os números divulgados pelo Ministério da Saúde e imaginamos que essas doses serão aplicadas. O que a gente sabe é que, uma vez aplicada e passados 15 dias, tem um efeito tanto da primeira quanto da segunda dose. Fazemos as simulações nesse sentido. E, olhando as doses que estão disponíveis, vendo a faixa etária da população e onde se consegue chegar, conseguimos ver um cenário bem melhor.

O que pode acontecer?

Obviamente, se no período de vacinação a abertura for muito rápida e tiver uma nova onda de contaminação, como está tendo em alguns lugares - acho que é até uma experiência boa para o Brasil ver o que está acontecendo em outros lugares -, pode de fato ter algum prejuízo à reabertura. Mas o BC não trabalha com especulações e nem somos da área da medicina. O que fazemos é uma curva de vacinação e tentamos imaginar a sua eficiência. E, baseado nisso, acreditamos que no segundo semestre vamos ver uma reabertura da economia.

O presidente Jair Bolsonaro sempre manifesta muita preocupação com a alta dos preços. Qual é sua relação com o presidente em relação a esse tema tão sensível?

Tenho sempre dito que tenho liberdade total para trabalhar, tem umas conversas onde eu apresento os cenários. Inflação é uma preocupação de qualquer presidente em qualquer lugar do mundo. Ainda mais no mundo emergente, onde a inflação de alimentos corrói muito o poder aquisitivo da população de mais baixa renda. Mas a formulação e apresentação dos cenários é feita sempre com intuito de esclarecer e levar uma visão técnica do BC. É sempre assim que temos atuado.

O sr. tem saído a campo nas conversas com lideranças políticas na defesa de medidas. No dia da votação da PEC emergencial, foi a uma reunião na casa do presidente da Câmara, Arthur Lira. Essa postura recebe críticas e também apoio. Como vê os críticos de que há politização no BC?

Quando eu cheguei ao governo, perguntei ao meu antecessor (Ilan Goldfajn) como era o relacionamento com o mundo político. Ele disse: “Olha, nós temos uma agenda, fazemos reuniões periódicas para explicar. Grande parte dela tem de passar no Congresso”. Existe uma relação para explicar os projetos. E continuamos atuando da mesma forma. Faz parte.

Mas no dia da votação da PEC, não era a agenda do BC. Era uma agenda de governo.

Tenho uma interação natural sobre a agenda do BC e tem uma parte de esclarecimento técnico. Às vezes, o esclarecimento técnico é formal. É chamado para ir ao Congresso e, às vezes, algum parlamentar fala “você pode fazer uma apresentação de economia, como o BC está vendo o cenário”. No caso referido, eu fiz uma apresentação sobre o que eu achava no cenário do BC. Obviamente, dentro daquele contexto (votação da PEC), da fragilidade fiscal, da importância que era o fiscal (contas públicas), para o nosso cenário. Essa percepção de que o BC está envolvido na parte fiscal não é verdade. Não participei de nenhuma reunião de Orçamento. A nossa função é técnica. Faz parte falar das variáveis que impactam o cenário macroeconômico. E o fiscal é um deles. Não entrei em nada específico sobre a PEC.

Não se via um presidente do BC tão atuante na área política. O sr. há de concordar, não?

Não. Não concordo, não. Eu atuo de uma forma bastante parecida com a do meu antecessor.

Um dos argumentos que o BC utilizou para aumentar os juros era de que a economia estava se recuperando, por conta de dados melhores do Caged. Mas especialistas questionam essas informações.

Há hoje uma diferença entre o que indica o Caged (geração de vagas com carteira assinada) e a Pnad (todo o mercado de trabalho, incluindo os informais). A nossa conclusão é que podemos dizer que a parte formal do emprego, sim, recuperou rápido. Na parte informal, existe uma dúvida. Parte das pessoas acha que, com a economia reabrindo no segundo semestre, a parte informal recupera rápido. Outro grupo avalia que a parte informal pode não se recuperar tão rápido porque teve mudanças estruturais durante a pandemia. Acreditamos que, sim, a parte informal foi surpreendente. Baseado em todos os dados disponíveis. O BC não disse em nenhum momento que tem um crescimento espetacular. Ao contrário, abaixamos a previsão (para o PIB) de 3,8% para 3,6% em 2021. Temos um cenário de abertura no segundo semestre que é um pouco mais otimista.

O ministro Paulo Guedes diz sempre que o sr. é 100% fiel a ele. Mas toda vez que ele está na fritura, a primeira notícia que aparece é que o sr. é candidato a ficar na vaga dele. Como vê essas especulações?

Gastamos muito tempo falando de pessoas e pouco tempo falando de ideias. Eu prefiro sempre falar de ideias. Têm pessoas que estão mais alinhadas com as minhas ideias. Eu diria que o ministro Paulo Guedes é 100% alinhado com as ideias. Obviamente, é impossível achar dois economistas que pensam exatamente igual sobre tudo, mas de uma forma geral, temos um grande alinhamento de ideias. E todo debate que eu faço, não só com o ministro, mas com todos os outros, é no campo das ideias. Eu acredito nesse movimento, que foi iniciado, que é o dos liberais. A saída para o Brasil é menos pública e mais privada. Tem uma frase de um economista chileno que eu gosto muito, que é: “O Brasil gastou muitos anos tentando achar soluções públicas para os problemas privados”. Mas o que a gente precisa fazer é o contrário. Precisamos achar soluções privadas para os problemas públicos. E está cada vez mais óbvio isso na forma como o cenário macroeconômico tem se desenvolvido.

O sr. não respondeu à pergunta sobre substituir Guedes.

Nunca houve convite. Eu tenho uma agenda no BC a seguir. Tenho uma missão no BC a cumprir. A minha agenda comunga das mesmas ideias do grupo econômico como um todo, e o que tentei explicar foi como essa agenda é importante e como eu posso, do meu lado, do cargo que ocupo, ajudar nesse pensamento liberal.

A política liberal do governo não ficou enfraquecida depois dos episódios de intervenção na Petrobrás, no Banco do Brasil?

Eu prefiro falar sobre as coisas que estão ao meu alcance. No BC, sempre tivemos total liberdade de atuação. Independência total. Existe entendimento que é um órgão técnico. Sempre temos um debate aberto com a sociedade e com o governo. Acredito que o liberalismo é a solução, porque o Estado brasileiro está intoxicado pelo seu tamanho. Precisamos ganhar eficiência diminuindo o seu tamanho e não aumentando. Existiram tentativas feitas no passado de ganhar eficiência através de aumento, e não deu certo. Estamos aqui para fazer uma tentativa diferente, o pensamento liberal. Eu não posso comentar sobre empresas que não são reguladas pelo BC, como o BB, e sobre temas de outras empresas.

Não há um retrocesso na agenda liberal? 

Vejo um grande processo de negociação que acontece em todo sistema político, em toda democracia, onde tem interesses distintos. E onde nós do governo, da equipe econômica, tentamos demonstrar, porque acreditamos que as nossas ideias fazem sentido. Essa é a saída para o País. Agora, eu sou responsável pelo BC. O BC faz política monetária, cambial, faz a parte de crédito. A nossa agenda do BC vai no sentido de uma agenda liberal, que é criar competição bancária, fazer um agenda de sustentabilidade. A nossa agenda está toda ligada ao pensamento liberal. Ao invés de comentar sobre as outras, eu comento sobre a minha. O que eu posso trazer como contribuição dentro do cargo que ocupo. Ela tem demonstrado ser de competição, de inclusão, de aumento de educação financeira. Grande parte do nosso pensamento é fazer com que as empresas grandes consigam ir para o mercado de capitais, para que os bancos possam ter mais espaço no balanço para emprestar para empresas médias e pequenas e ter mais fintechs. Olha o Pix, por exemplo, que teve enorme inclusão de novos modelos de negócios. Essa é nossa forma de contribuir com as ideias liberais.

O que mudou no BC autônomo? 

Fica um arcabouço de separação de política monetária do ciclo político que é muito, muito vantajoso. Lembrando que a autonomia do BC é um equilíbrio de poderes total. Tem um equilíbrio do presidente do BC e o presidente do País. Ou seja, o ciclo do presidente do BC e o político. Tem equilíbrio entre o mandato do presidente do BC e dos diretores. Lembrando que o presidente do BC vai nomear dois diretores. É um arcabouço mais sustentável quando olhamos para o longo prazo. E por ser mais sustentável, e passar uma credibilidade maior, faz com que ao longo do tempo a inflação seja mais baixa e volátil. Os estudos mostram isso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.