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Impasses com FMI colocam em risco governo Duhalde

Palavras de alento e solidariedade não estão servindo de nada para a Argentina, que, a cada dia, vê ficar mais grave a sua situação política, econômica e social. Se o presidente Eduardo Duhalde aceitar totalmente as imposições e exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), corre o risco de ser derrubado. Se não aceitar, também.O quadro social no país é cada vez pior, segundo analistas políticos consultados pela Agência Estado. Entre novembro do ano passado, período em que o então presidente Fernando de la Rúa via seu mandato escorrer pelas mãos, e fevereiro deste ano, quando começou a se conhecer os resultados macroeconômicos do ano passado, cerca de 123 mil empregos foram perdidos no país.Apenas no mês passado, 75 mil argentinos ficaram desempregados e, nos últimos 15 dias, 20 mil micro e pequenos centros comerciais foram fechados. Com isso, são cerca de 4,5 milhões as pessoas com problemas de emprego e 15 milhões de habitantes vivendo abaixo da linha da pobreza. Na semana passada, apesar de intervenções do Banco Central, com quase US$ 200 milhões, o dólar disparou de 2,10 pesos para 2,50 pesos.Esses números dramáticos se somam ainda aos resultados oficiais recentemente confirmados pela administração Duhalde, como a queda de 16% do PIB per capita nos últimos 40 meses, de 43% dos investimentos, de 22% dos depósitos somente nos últimos nove meses e de mais de 50% das reservas internacionais, que passaram de US$ 30 bilhões para US$ 13,4 bilhões. As contas do governo fecharam 2001 com um déficit de US$ 13,9 bilhões e as 24 províncias geraram um resultado negativo de US$ 5 bilhões no mesmo período.Mais lenha na fogueira Nesse quadro, onde a economia do país toma cada vez mais o rumo da depressão do que da recuperação, as exigências do FMI colocam mais lenha na fogueira, disse à Agência Estado Ricardo Rouvier, da Rouvier Associados. "O castigo imposto à Argentina por portar-se mal e até eventualmente por ter mentido não se justifica mais, sob risco de uma nova explosão social", alertou o analista, por telefone de Buenos Aires.Embora repita quase todo dia que a ajuda do Fundo virá, o presidente Eduardo Duhalde parece estar convencido de que não será assim, pelo menos enquanto não resolver a questão fiscal com as províncias, das quais precisa exigir um dramático ajuste para fechar as contas até o final do ano. A nova lei de falências, sancionada recentemente pelo presidente Duhalde, deverá ser modificada por exigência do Fundo.O FMI quer ainda que o BC não intervenha no mercado de câmbio queimando suas reservas, mesmo que o dólar dispare acima 4 ou 5 pesos. Mas a alta do dólar pode levar o país a uma inflação descontrolada. O impacto médio dos insumos importados no custo da indústria, por exemplo, já está sendo calculado em 32%.O Fundo exigiu também do governo Duhalde a restrição do uso de bônus, que, hoje, permitem injetar alguma liquidez na já agonizante economia argentina. Se a exigência for atendida, o quadro caótico no país poderá estar se armando, já que a desesperação social poderá abrir caminho a alternativas políticas autoritárias. "Salvo que o FMI adote uma atitude de ajuda a conta-gotas, com supervisão rígida, a governabilidade poderá estar mantida" afirma Rouvier. Mas, alerta o analista, "se não sair o acordo com o Fundo, a Argentina estará virtualmente isolada"."Se o FMI exigir que o governo corte ainda mais o gasto público, a situação social vai ficar pior, com o desemprego e pobreza a tomando rumos crescentes e trazendo sérios problemas para o país", disse Rouvier. Para o analista, a Argentina vive hoje um momento de tensão perigoso. "Se o governo não conseguir convencer o Fundo sobre o Orçamento possível, mesmo não sendo real, é provável que o reconhecimento dos governadores das províncias à figura do presidente acabe e, com isso, a situação política venha a se complicar", acrescentou o analista.Riscos para a governabilidadeRouvier destacou que com a ausência de governabilidade os partidos e a sociedade pediriam a antecipação das eleições. Mas o mais grave, acrescentou ele, "é que poderia criar-se uma situação de descontrole social, com rebeliões abertas parecidas às de dezembro do ano passado".Apesar de ter cumprido oito das dez exigência do Fundo, como disse Duhalde na sexta-feira à rádio mexicana InfoRed, a ajuda financeira está longe de ser uma realidade. Rouvier acredita, no entanto, que os Estados Unidos não deixarão a Argentina chegar a essa situação, sob o risco de uma complicação maior na América Latina."Uma eventual explosão social em território argentino se somaria, certamente, ao complicado cenário colombiano e venezuelano e, ainda, à situação econômica que começa a se agravar no Uruguai e às eleições com resultado ainda incerto no Brasil", lembrou Rouvier.Nos dois primeiros meses do ano, o Uruguai perdeu 1/3 de suas reservas para segurar a moeda do país. Agora, o governo quer do FMI pelo menos US$ 750 milhões para elevar essas reservas para pelo menos os níveis de fevereiro de 20001, quando estavam em US$ 2,5 bilhões. O Fundo pediu, no entanto, uma redução do déficit de 4,4% do PIB registrado em 20001, para 2,5% este ano.Leia o especial

Agencia Estado,

19 de março de 2002 | 11h24

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