Gabriela Biló/Estadão
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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

Impeachment de Bolsonaro entra agora no radar do mercado financeiro, dizem economistas

Para os economistas Sérgio Vale, Monica de Bolle e Alexandre Schwartsman, não dá para descartar dólar a R$ 6 e uma queda de até 9% no PIB, com o agravamento da crise política

Renato Jakitas, Thaís Barcellos e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 13h56
Atualizado 24 de abril de 2020 | 22h57

Com  a saída do governo do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, nesta sexta-feira, 24, em meio a acusações graves contra o presidente Jair Bolsonaro, a possibilidade de um impeachment entra no radar do mercado financeiro, dizem economistas.  

Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, o impeachment do presidente está no radar e, a depender da duração da crise, não dá para descartar uma queda de 7% a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, assim como o dólar a R$ 6, especialmente se houver a saída de outros ministros. “Enquanto não tiver solução para a crise, podemos ver a economia sangrando, como foi com a Dilma (Rousseff, ex-presidente)”, afirmou. 

A economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior em Washington do Peterson Institute for International Economics, também projeta um quadro para a economia do País com forte recessão e impactos pesados na curva de desemprego. “Eu já trabalhava com um cenário de queda de PIB de 6% a 9%, sendo 6% com o governo fazendo alguma coisa e 9% com ele não fazendo quase nada para resolver os problemas. A saída de Moro deixa o governo mais próximo de não fazer nada”, afirma. 

O economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, tem opinião parecida. Para ele, a saída de Moro, da forma como se deu, coloca no radar dos investidores possibilidades como o impeachment de Bolsonaro e também a dúvida acerca da manutenção do ministro da Economia, Paulo Guedes, no cargo. 

Para Vieira, a saída do ex-juiz da Lava Jato pode enfraquecer o apoio político ao governo, já que boa parte dos simpatizantes de Bolsonaro tinha referência na figura de Moro. Isso, somado às acusações do ex-ministro de que o presidente teria tentado interferir politicamente na Polícia Federal, deixa no horizonte a possibilidade de impeachment.

“Infelizmente, isso entrou no radar, até com a Bolsa caindo quase 10%. É algo que a gente não queria ter de abordar de novo em um espaço tão curto de tempo, e no curto prazo é o pior cenário”, diz.

Sérgio Vale, por sua vez, lembra que a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também já sinaliza insatisfação, assim como o ministro Paulo Guedes, principalmente depois do anúncio do Plano Pró-Brasil, que, segundo ele, pode ser mortal para relação com Bolsonaro.

“O Plano Pró-Brasil pode ser a senha para Guedes sair do governo. O governo está desmontando, se voltando para aqueles que estão mais próximos, para a família. Já vimos no passado que isso não deu certo com Dilma e (Fernando) Collor. A crise da covid-19 vai se estender para os próximos meses e anos. Com um presidente forte seria difícil essa coordenação para sair da crise, com um presidente fraco vai ser quase impossível”, afirmou.

Na avaliação de Vale, Bolsonaro está criando todas as condições para o fim do governo antes de 2022. “Politicamente, é um governo que se enterrou, legalmente tem toda questão se vai se iniciar um processo impeachment. Do ponto de vista econômico, cada vez mais vai haver insatisfação muito grande entre empresários e lideranças, até no agronegócio, vejo dificuldade de sustentação. A crise econômica vai ser a pá de cal. Como esse governo vai conseguir gerir dívida bruta de 90% do PIB?”

Impeachment seria problema para o mercado?

O impeachment, atualmente, seria melhor para o mercado e para as perspectivas da economia, do que a manutenção do atual dinâmica de Brasília, com o presidente criando uma nova crise por semana em meio ao avanço da pandemia do coronavírus. Essa é a opinião do economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC).

“O impedimento de Bolsonaro não seria um problema, mas uma solução”, afirma. Para o economista, a saída do ex-juiz da Lava Jato pode enfraquecer o apoio político ao governo, já que boa parte dos simpatizantes de Bolsonaro tinha referência na figura de Moro. “A gente já viu esse filme no passado. O presidente perde governabilidade e vira um zumbi. Mas quando o impeachment avança, o mercado já coloca isso no preço dos ativos e tudo melhora, melhoram a perspectiva da economia, as pessoas ficam mais calmas”.

Ação essa que talvez possa tirar o Brasil de um futuro incerto. Segundo Monica de Bolle, países que têm atuado de forma organizada para reduzir os impactos da crise sanitária na economia já devem enfrentar uma forte recessão, além de precisar de algum tempo para retomar a economia nos patamares pré-coronavírus. Porém, no País, a falta de foco e as crises pelo caminho, como a que tomou o Planalto nesta quinta, devem tornar tudo mais imprevisível. “O Brasil está no começo da crise, longe de conhecer o pico da curva de infecção. Fica muito difícil fazer previsões nesse cenário. Mas, com o que se vê do governo, o desemprego, que já seria alto, agora vai à Lua, acima dos 20% com toda a certeza”, afirma a economista

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