Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

Impeachment seria 'território desconhecido', diz diretora da Fitch

Shelly Shetty afirma proceso de impeachment poderia paralisar o Congresso e piorar ainda mais o cenário das contas públicas

Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2015 | 13h22

SÃO PAULO - A diretora de ratings soberanos da América Latina da Fitch, Shelly Shetty, afirmou nesta sexta-feira, 16, que os riscos de um impeachment da presidente Dilma Rousseff aumentaram desde abril, quando a agência havia reafirmado a nota do País, mas que esse ainda não é o cenário base. A declaração foi dada durante teleconferência para explicar os motivos que levaram ao rebaixamento do Brasil ontem para BBB-, o último nível ainda dentro da faixa de grau de investimento. Ela explicou que a atual perspectiva negativa da nota já captura parte das incertezas políticas e, assim, a possibilidade de impeachment.

"No caso de um impeachment se concretizar, nós estaríamos em um território desconhecido e seria preciso analisar as implicações para as políticas econômicas", comentou Shelly. Ela acrescentou que, quanto mais longo for esse eventual processo de impeachment, maiores seriam as incertezas e o Congresso ficaria paralisado, focado somente nisso e sem conseguir votar medidas importantes para o ajuste fiscal. "Seria preciso ver como o Brasil emergiria desse cenário, porque a situação (fiscal) pode ficar pior durante esse processo e gerar desafios ainda maiores para o eventual novo presidente", comentou.

Questionada pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, sobre os constantes rumores de saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e as recentes declarações do ex-presidente Lula contra o ajuste fiscal, Shelly disse que o ministro tem credibilidade e um papel importante no programa de ajuste. "Os ratings tendem a se focar mais na performance econômica e fiscal (não nas pessoas). Se Levy sair, analisaríamos como seria o novo ambiente político, quais seriam as orientações para as políticas econômicas, o ritmo do ajuste", explicou. 

CPMF. Shetty afirmou que a avaliação da agência não incorpora a aprovação da CPMF, até porque existe uma grande resistência do Congresso. Esse é um dos motivos pelos quais a Fitch não espera um superávit primário para o próximo ano. "Mesmo assim, precisamos analisar o que o governo vai fazer na ausência dessa receita, pois é uma fonte importante de recursos para 2016", disse.

Ela comentou que não vê grandes movimentos do governo para encontrar outras fontes significativas de receita e apontou que o projeto para repatriação de recursos no exterior dificilmente será aprovado rapidamente pelo Congresso. "Mas é algo que poderia aliviar os céus políticos, gerar receitas para o próximo ano."

Questionada sobre os rumores de que o governo pode anunciar em breve uma nova redução na meta de superávit para este ano, Shelly explicou que nesse caso a agência teria de avaliar a situação, mas que a Fitch já prevê um déficit de 0,2% do PIB em 2015. "O essencial é como fica a situação de 2016 para frente", pontuou.

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