Importação de aço opõe siderúrgicas a distribuidoras

IABr acusa as distribuidoras de fazer 'importações especulativas', ancorando-se em benefícios fiscais concedidos pelo governo

Mônica Ciarelli / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

O volume crescente de importação de aço que vem sendo registrado no Brasil acirrou as diferenças entre o Instituto Aço Brasil (IABr), entidade que representa as siderúrgicas, e as distribuidoras do setor.

Para o presidente do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, o nível recorde dos estoques nacionais reflete as "importações especulativas" das distribuidoras. Segundo ele, elas estariam se ancorando em benefícios fiscais oferecidos pelo governo. As distribuidoras dizem, por sua vez, que importam porque estão em busca de preços mais baixos.

"Essas importações especulativas estão sendo realizadas, diga-se de passagem, sem beneficiar o consumidor final. Alguém está se apropriando dessa margem, e é o distribuidor", afirma Lopes. Já Christiano da Cunha Freire, dono da segunda maior distribuidora de aço do País, afirma que as companhias seguem apenas as regras de mercado.

"Todo mundo procura comprar mais barato e o preço do aço lá fora está 10% a 15% mais barato do que o cobrado internamente", explica. O mercado considera que a partir de 15% de prêmio já vale a pena para os consumidores de aço assumir os riscos de importação, como o cambial e a defasagem entre a data do pedido e a da entrega.

Existe ainda o custo de frete, que acaba sendo compensado pelos incentivos fiscais oferecidos por Estados brasileiros para o uso de portos fora de São Paulo. São esses benefícios que o presidente do IABr critica. Mas, segundo Freire, os benefícios são praticamente neutralizados pelos custos de frete, que podem chegar a representar de 10% a 13% do valor da mercadoria.

Dados do Instituto Nacional de Distribuidores de Aço (Inda) revelam que os estoques de aço já atingiram o nível histórico de 3,6 meses de consumo, frente aos tradicionais 2,6 meses. Para Freire, esse aumento se deve ainda ao câmbio favorável e a uma recomposição de estoques pelas companhias.

Navios. Quando o assunto é crescimento das importações, o presidente do IABr não poupa críticas também à Transpetro, empresa de transporte da Petrobrás, que recentemente anunciou uma importação de cerca de 19 mil toneladas de aço da China. Segundo ele, os produtos brasileiros são prejudicados pela falta de igualdade de condições com os concorrentes importados. Isto porque, reclama, a Transpetro importa aço com alíquota zero por conta dos programas governamentais de incentivo à indústria naval.

"Era para ser um indutor do crescimento da economia interna. Mas, se eu coloco a indústria naval incentivada, eu tiro uma fatia desse mercado'', diz. Fora do incentivo à indústria naval, o aço importado tem tarifa de importação que varia entre 12% e 14%.

Com a meta de importar 680 mil toneladas para a construção de 49 navios no País, o presidente da Transpetro, Sérgio Machado, argumenta que a opção pela China se deveu às melhores condições de preço oferecidas pelo país. O executivo conta que 15 siderúrgicas de oito países, inclusive do Brasil, participaram da concorrência. "Não posso fazer com que a indústria naval, que está começando, seja penalizada por um preço de aço mais caro."

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