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Importação de vacinas pelos empresários

O argumento do fura-fila é equivocado e achar que isso é antiético é enxergar pequeno

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 19h46

Em tempos de pandemia, espocam certas reprovações inesperadas de natureza ética. Uma delas é não permitir que empresas privadas importem vacinas para que pelo menos metade seja destinada ao setor público e a outra metade, a funcionários (e familiares) e, eventualmente, clientes.

O governo brasileiro autorizou essa operação mais para tentar compensar, de alguma maneira, a omissão absurda do Ministério da Saúde do que para aumentar a oferta interna de vacinas.

Alguns empresários se recusaram a participar da operação por entenderem que caracteriza esquema fura-fila, na medida em que seus funcionários e clientes seriam atendidos antes dos mais vulneráveis, os mesmos que já fazem parte das listas de agendamento. E, nesse caso, episódios de fura-filas acabariam por serem percebidos como políticas antimarketing.

Há quem evoque uma abordagem ideológica, a de que, em matéria de política de saúde, a primazia tem de ser do setor público, não importando se essa função esteja ou não sendo competentemente exercida. De acordo com essa postura, o empresário que compra vacinas está furando a fila não só em seu próprio país, mas também no resto do mundo, na medida em que contribui para impedir que países mais pobres sejam atendidos.

Ou seja, se o empresário brasileiro compra milhões de doses, são países da África ou da América Latina que ficam prejudicados, porque não sobrará para eles. Essa parece ter sido a razão pela qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem repelindo a iniciativa.

Argumento difícil de agarrar, se, em inúmeros casos, é o próprio setor público que vem atropelando esquemas prioritários de atendimento. Os países ricos, por exemplo, se apropriaram da maior parte dos suprimentos, sem levar em conta a situação desesperada em que se encontram os países mais pobres. E, no entanto, embora lamente o prejuízo dos que ficaram para trás, a OMS não entendeu que devesse fazer qualquer objeção ética a esse jogo de poder e de influência. O Canadá, por exemplo, comprou quatro vezes mais vacinas do que as duas doses de que toda sua população necessita. Israel, o país mais avançado na imunização (veja a tabela), está vacinando garotões de 18 anos, embora não esteja atendendo a população da Faixa de Gaza.

O argumento do fura-fila usado contra a importação pelo setor privado é equivocado. Porque mais suprimento de vacinas reduziria as filas e porque contribuiria para a redução da escassez. O SUS contava com um reduzido número de doses e passa a contar com mais, e não com menos. Quanto mais rápida a vacinação, melhores as condições de recuperação da economia e do emprego. Portanto, além de atender a requisitos sanitários, os empresários estariam contribuindo para a virada do jogo na economia.

Dentro de algumas semanas, novos laboratórios passarão a oferecer mais vacinas, como a própria OMS relata (veja o gráfico). E aí os argumentos ideológicos e éticos contra a contratação de vacinas pelo setor privado perderão razão de ser.

Marketing por marketing, a compra de vacinas por empresas pode produzir avanços para a situação sanitária da população. Por exemplo, quando houver condições, se as companhias aéreas, a rede de hotelaria e as agências de viagem oferecerem vacinação para quem marcar viagens, além de reduzir o buraco de caixa em que se encontram, elas contribuiriam para estancar a propagação do novo coronavírus. Achar que isso é antiético é enxergar pequeno

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