Imprensa monitora Bolívia e "onda de populismo" na AL

A nacionalização do setor de gás e petróleo na Bolívia continua nesta quarta-feira sendo alvo de especial atenção na imprensa internacional, que avalia o atual momento político na América Latina.O Financial Times, em editorial, critica duramente a decisão do presidente Evo Morales e avalia a "onda de nacionalismo" em vários países da região. "A nacionalização do gás boliviano nesta semana por Evo Morales, presidente, tem um elemento de história se repetindo a si mesma como farsa", diz o diário financeiro britânico.O FT observa que "apesar de sua retórica inflamatória e o emprego do exército para garantir os campos de petróleo e gás, o plano de Morales parece consistir principalmente numa tentativa de extrair uma maior fatia de arrecadação para seu Tesouro". No entanto, observa o jornal, isso é arriscado. "A Bolívia tem a segunda maior reserva de gás da América do Sul mas precisa comercializá-la e carece do capital e da capacidade para fazê-lo", disse. "Alienar investidores com a Petrobras do Brasil e a Repsol da Espanha, com grandes interesses na Argentina, poderá cortar a Bolívia de seus principais mercados."O jornal afirma que não há nada de "intrinsecamente errado em se tentar maximizar impostos e royalties" mas a experiência na Venezuela e Argentina mostra que os ganhos dos governos com os recursos naturais acabam não beneficiando a população. A decisão de Morales, segundo o FT, não é apenas uma resposta aos preços mais elevados do petróleo e de outras commodities. "Tem havido uma onda de nacionalismo de recursos, que nos casos como o da Rússia ou Irã está ligado a assegurar o máximo de poder possível e aumentar os ganhos. Mas na América Latina é também uma resposta ao fracasso de se desenvolver economicamente, a persistência da pobreza generalizada e uma atração fatal ao populismo."O jornal afirma que o atual "paladino do populismo latino" é o presidente venezuelano Hugo Chávez. Além disso, lembra que o segundo turno das eleições peruanas será disputado por "duas tradições de populismo" enquanto a Argentina "nunca foi capaz de se livrar do Peronismo". No México, o candidato Andrés Manuel Obrador, "um nacionalista de esquerda com algumas tendências populistas" tem chances de vitória na eleição presidencial de julho.O FT observa que o Chile, Uruguai e "até certo ponto, Brasil, todos governados por partidos de esquerda," parecem estar numa situação melhor. "De uma maneira geral, eles conseguiram combinar ortodoxia monetária, prudência fiscal e abertura ao comércio, investimento e idéias com políticas sociais específicas", disse. "A América Latina pode muito bem cobrar um preço mais alto por seus recursos. Mas o que ela mais precisa é de governos com políticas, ao invés de atitudes", concluiu o FT.O jornal New York Times afirma que a decisão boliviana "é a mais vívida ilustração até agora de que políticas econômicas radicais lideradas pela Venezuela, estão se espalhando". Além disso, acrescenta o jornal norte-americano, ela sinaliza "a influência declinante sobre a Bolívia não apenas dos Estados Unidos, mas do Brasil", maior investidor no país."O principal temor de parte dos observadores é que a ação boliviana poderia encorajar outros governos sul-americanos a tomar as mesmas medidas", disse o NYT.

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