Impressões (superficiais) da China

Antônio Márcio Buainain*, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2015 | 02h03

Fiz cinco viagens à China. A primeira, em 1991, quando o país iniciava as reformas que o levariam a ser a 2.ª economia do mundo e locomotiva global. Pequim, então com poucos arranha-céus, ruas dominadas por bicicletas, comércio pobre, com poucas lojas do Estado vendendo produtos tradicionais, de pérolas a roupas de seda mal feitas, pareceu-me uma cidade invadida por camponeses, tamanha a simplicidade e ruralidade da população. O carro mais luxuoso era a nossa "carroça" Santana. A cada viagem, em 2001, 2011 e 2015, encontrei um país novo, em todos os aspectos.

No último mês constatei que a infraestrutura urbana, de transporte e comunicação, é comparável à dos melhores países europeus. Uma invejável rede de metro e ônibus urbanos macios, refrigerados e silenciosos reduzem o estresse dos engarrafamentos e poluição nas grandes cidades. O uso das TICs está incorporado ao dia a dia da crescente classe média. O pagamento eletrônico com o celular é comum em lojas e restaurantes; nas zonas rurais, os pequenos agricultores sacam dinheiro, tomam e pagam empréstimos em terminais dos bancos instalados em pontos de comercialização de insumos e produtos (a transação é registrada eletronicamente, mas quem recebe e faz os pagamentos é o comerciante, conveniado com a instituição financeira). Nas universidades, os estudantes usam um cartão especial para pagar a alimentação no câmpus, aluguel da moradia universitária, despesas de laboratório, cota de internet, transporte público e gastos de saúde, entre outros.

Andando em Pequim, Shangai, Xi'an, Nanquim e Fujian, tive a impressão de que o negócio de quinquilharias e produtos piratas deu lugar a grandes shopping centers e ruas comerciais que vendem, legalmente, as principais marcas de luxo e bens de consumo de alta qualidade, com preços ligeiramente mais caros que os vigentes em Hong Kong ou Nova York, mas competitivos. Não encontrei, em nenhuma dessas cidades, algo parecido com a galeria Stand Center, em São Paulo, onde se oferecem quinquilharias chinesas mais baratas do que na própria China, e produtos "similares" de todas as marcas e vários padrões de qualidade.

Tampouco encontrei temor em relação ao futuro. Todos registram a desaceleração do crescimento, a elevação do custo de vida e as dificuldades do setor imobiliário para vender os caros imóveis já construídos e em construção. Os economistas com quem conversei apontaram três desafios para assegurar o crescimento sustentável: 1) aprofundar reformas para reforçar as instituições de mercado e para alinhar, de forma mais clara, as intervenções do Estado aos sinais de mercado, com o objetivo de reduzir distorções como as responsáveis pelo estoque de imóveis residenciais e comerciais que hoje ameaçam a estabilidade econômica; 2) convencer a população a reduzir a poupança e elevar o consumo, a priorizar o presente e não o futuro; e 3) investir na conversão para a economia verde.

Alguns entrevistados disseram-me que os brasileiros não sabem fazer negócios com os chineses: somos apressados, temos visão de curto prazo, não estabelecemos vínculos, não voltamos para conversar, não fazemos "amizade" antes de negociar, e por isso aproveitamos pouco as oportunidades que se abriram na economia e na sociedade chinesas.

Tive dificuldades de compreender tamanha transformação em apenas 25 anos. Não me refiro só à da infraestrutura e à da tecnologia, mas à cultural, institucional. De onde surgiram os milhões de empreendedores que movimentam toda a economia? Como se montaram as cadeias de suprimento que estruturam essas atividades? Como adaptaram a cultura milenar, modificada pelas décadas de maoismo, à dinâmica e vida de uma economia de mercado? Como foi possível transformar os camponeses que tinham "invadido" Pequim em 1991 em empreendedores, doutores, cientistas, trabalhadores? E tudo isso num contexto de regime autoritário, que define e impõe os rumos para o país?! Retornei com a certeza de que temos de nos aprofundar na experiência chinesa e precisamos voltar para fazer amigos e negócios.

*ANTÔNIO MÁRCIO BUAINAIN É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNICAMP

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