Impressora de objetos começa a ganhar mercado

Equipamento que imprime em três dimensões custa US$ 2 mil nos Estados Unidos e permite fabricar peças de plástico em casa

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h11

A sensação de ver pela primeira vez uma impressora 3D em funcionamento remonta ao início dos anos 90, quando os celulares, ainda pesados, caros e com suas antenas gigantes, começavam a circular pelas mãos de pessoas em Nova York, São Paulo, Paris e Tóquio. Também se assemelha em parte ao início dos computadores pessoais, com o Macintosh, da Apple, no fim dos anos 70. Parece que estamos vendo o futuro que ainda não se concretizou.

Existem diversas impressoras 3D sendo fabricadas nos Estados Unidos e em algumas outras partes do mundo por empresas como Ultimaker, RepPap e Makerbot, bancadas por fundos de investimento. Parte delas possui finalidade industrial. Outras são para qualquer pessoa comprar e imprimir objetos na próprias casas. Uma loja delas abriu as portas recentemente em Manhattan.

Galeria. A loja da Makerbot Store, primeira varejista de impressoras 3D, localizada na região do Soho, pode até ser confundida com uma das várias galerias de arte do bairro nova-iorquino. A não ser pelos funcionários, vestidos no estilo dos vendedores da Apple. Mas, diferentemente dos das lojas envidraçadas da Quinta Avenida e da Grand Central Station que vendem iPhones e iPads, eles não estão tão preocupados em vender. Querem mesmo exibir os produtos que parecem ser de um futuro ainda não concretizado. A loja até mesmo chama os consumidores para "conhecer e ver como é uma impressora 3D".

As máquinas ficam ligadas o tempo todo e há miniaturas da Casa Branca, da Torre Eiffel e do Empire States "impressas" nas estantes. Para a reportagem do Estado, um dos funcionários decidiu imprimir duas pulseiras porque seriam "mais rápidas". O processo "rápido" demorou mais de 20 minutos até as pulseiras ficarem prontas. A demora demonstra que esse produto ainda está em seu início, como um computador que há 30 anos era inferior a uma máquina de escrever na hora de elaborar um texto. "Nossa visão é para daqui algum tempo", disse o vendedor.

Funcionamento. Uma das maiores dúvidas de quem visita as lojas é o funcionamento da impressora 3D. As impressoras pessoais imprimem apenas produtos de plástico, embora as industriais também usem metal. São metros de fios de plástico de diferentes cores que são enrolados e colocados dentro de impressoras como se fossem as tintas de uma de papel. Esse plástico é aquecido a altas temperaturas para ser derretido. O líquido é pingado sobre uma superfície aberta e a imagem começa a ganhar forma tridimensional.

Um desenho do Homem-Aranha no computador pode se transformar, em algumas horas, em um boneco do Homem-Aranha para uma criança brincar.

Atualmente, essas impressoras 3D, que custam pouco menos de US$ 2 mil, servem especialmente para arquitetos e engenheiros construírem maquetes em seus escritórios ao imprimirem imagens em três dimensões de projetos no Autocad. Ao todo, segundo a assessoria da empresa, há 15 mil profissionais usando essas impressoras fabricadas pela Makerbot, que possui 25% do mercado, levando em conta os equipamentos industriais.

Utilidade. O uso das impressoras 3D, embora ainda restritas a alguns profissionais, além de curiosos que queiram imprimir réplicas de seus rostos (é possível), pode no futuro transformar toda a economia, beneficiando os EUA e as nações desenvolvidas em detrimento da China, segundo George Magnus, economista do banco UBS, em recente artigo no Financial Times.

Segundo ele, as impressoras 3D permitirão "a fabricação aditiva", que alterará a forma como o mundo "produz coisas". Companhias poderão fabricar localmente e responder rapidamente a mudanças na demanda, sem a necessidade de estoques e carregamentos gigantescos. Os Estados Unidos terão vantagem, de acordo com Magnus, porque as empresas pretendem ficar perto dos designers dos produtos e dos consumidores.

Neil Gershenfeld, professor do MIT, é mais cético sobre as impressoras 3D, pois imagina que outros produtos, inclusive alguns desenvolvidos por ele, e que pretendem juntar átomos e moléculas diretamente - sendo capaz de fabricar diretamente um "drone", como são chamados os aviões não tripulados -, devem trazer mais avanços.

Para ele, em artigo na revista Foreign Affairs, existe uma febre muito grande com as impressoras 3D, que já foram capas de revistas como a The Economist e a Wired, mas talvez esses produtos sejam "como os fornos de micro-ondas nos anos 50, que seriam o futuro da culinária. Hoje, sabemos que os micro-ondas são convenientes, mas não substituem o resto da cozinha".

Um dos temores envolvendo as impressoras 3D é o uso delas para a fabricação de armamentos. Um grupo de estudantes da Universidade do Texas lançou um projeto chamado Defense Distributed para criar arquivos na internet que podem ser baixados por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo e impressos em uma impressora 3D.

O movimento, ainda incipiente, não tem como ser freado. A Primeira Emenda da Constituição americana garante a liberdade de expressão e a Segunda Emenda, o direito de portar armas.

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