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Imunidade 'natural' e falácia

Tratemos de cuidar das vidas, pois só assim teremos chance de cuidar, também, da economia

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 04h00

Com Denise Garrett **

Há vários artigos científicos recentes usando modelos epidemiológicos para estudar os limiares a partir dos quais a suposta imunidade coletiva “natural”, isto é, a alcançada pela exposição ao vírus e não por uma vacina, seria observada. Todos esses estudos, sem exceção, qualificam suas premissas e advertem sobre o uso indevido de suas análises para orientar as políticas de reabertura em países distintos. O artigo de Tom Britton, Frank Ball, e Pieter Trapman, publicado na Science no fim de junho, adverte explicitamente: “Nossas estimativas devem ser interpretadas como uma ilustração a respeito de como a heterogeneidade populacional afeta a imunidade coletiva, e não como um valor exato ou mesmo a melhor estimativa” (ver “A mathematical model reveals the influence of population heterogeneity on herd immunity to SARS-CoV-2”). Outros estudos com modelagens distintas de heterogeneidade populacional fazem advertências muito semelhantes.

O estudo de Britton et al. faz dois cortes de heterogeneidade populacional: idade e interação social. Idade é importante pois sabemos que, ainda que muitos jovens possam ser acometidos por casos graves da doença, os mais velhos são os que apresentam maior suscetibilidade ao SARS-CoV-2. Interação social pois sabemos que os chamados “supertransmissores” da doença são pessoas que interagem com muitas outras, frequentemente desencadeando surtos em suas comunidades. No modelo usado os autores calculam a imunidade coletiva entre 43% e 60%. O artigo explicita o problema de suas premissas: não se sabe o verdadeiro fator de reprodução do vírus, menos ainda qual o grau de imunidade conferido ou sua duração após a recuperação do paciente. Todos os estudos científicos publicados, seja após revisão por pares ou em estágio de preprint (sem revisão de pares) apresentam as mesmas fragilidades, sempre amplamente reconhecidas.

Ainda assim, o economista Samuel Pessôa escreveu artigo para a Folha de S. Paulo no qual considera a possibilidade de imunidade coletiva “natural” ao redor de 20% de infectados na população, sem levar em conta as premissas não comprovadas cientificamente em que se ancoram todos os estudos desse tipo. Estudos também mostram que mesmo que se atinja a imunidade coletiva, casos continuam se acumulando. Trata-se de efeito que infectologistas chamam de overshooting, onde o número final de pessoas infectadas ultrapassa o ponto de corte para a imunidade coletiva. Análises como a de Samuel são perigosas, sobretudo nesse momento em que o debate sobre reabertura de escolas e da economia de forma mais geral se apresenta no Brasil em meio a uma epidemia descontrolada que brevemente alcançará os 100 mil óbitos – esse número não incorpora os muitos casos de síndrome respiratória aguda (SRAG) sob investigação país afora.

Mesmo que o ponto de corte para a desconhecida imunidade coletiva estivesse ao redor de 20%, considerando os dados até o momento, estamos longe de atingir esse patamar. Na Itália, país devastado pela doença no início do ano, a prevalência de covid de acordo com os inquéritos epidemiológicos foi relativamente baixa. Na região mais atingida, a Lombardia, a prevalência foi de apenas 7,5%. Na Espanha a prevalência foi de 5%, e de 11% em Madrid. Na cidade de São Paulo, a prevalência geral estava em 11% no mês de julho, sendo que os mais pobres que vivem na periferia são desproporcionalmente mais afetados pela doença. Em alguns bairros da cidade de Nova York, a prevalência pode ter alcançado 20%. Estas estimativas são importantes, mas devem ser interpretadas com cautela pois muitas vezes os testes usados nos inquéritos de soroprevalência têm sensibilidade e especificidade distintas, tornando difíceis as comparações – esse, alias, é o caso no Brasil. Além disso, não sabemos quanto tempo a imunidade natural dura e nem sua consistência – ela pode ser bastante variável uma vez que é determinada por fatores diversos como idade, comorbidades, marcadores genéticos, carga viral de exposição, entre outros. Ainda mais importante, é o número de pessoas que morreriam desnecessariamente até que essa imunidade coletiva indefinida fosse alcançada. Por fim, há o problema das sequelas. Ainda que pacientes recuperados tenham alguma imunidade variável, os relatos sobre sequelas respiratórias, cardíacas, vasculares, renais, hematológicas, neurológicas, são cada vez mais frequentes.

É inestimável o estrago social e econômico que pode ser causado por políticas de reabertura sustentadas por artigos e cálculos sobre uma imunidade natural ainda incerta. Estamos diante de um agente infeccioso não apenas novo e letal, mas que causa doença sistêmica em muitas pessoas, tornando-as dependentes do sistema de saúde por longos períodos, quiçá permanentemente. Tratemos de cuidar das vidas, pois só assim teremos chance de cuidar, também, da economia

*ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

**MÉDICA, EPIDEMIOLOGISTA, E VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO SABIN, EM WASHINGTON

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