Inadimplência atinge nível mais alto desde 2000

Em maio, falta de pagamento chega a 5,5% no total e a 8,6% apenas para pessoas físicas

Fernando Nakagawa e Célia Froufe, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Mesmo com a melhora da economia, a inadimplência cresce sem parar desde o agravamento da crise, em setembro do ano passado. Em maio, o índice de pagamentos com atraso superior a três meses atingiu 5,5%, no maior nível desde setembro de 2000. Isso significa que R$ 37 bilhões deixaram de ser pagos por famílias e empresas no dia certo. Apenas nas operações para pessoas físicas, a situação é pior: o calote é de 8,6%, o mais alto desde o início da série, em junho de 2000. Em contraste com o noticiário otimista das últimas semanas, o mercado de crédito sente só agora o pior da crise - oito meses após a quebra do banco americano de investimentos Lehman Brothers, que precipitou a turbulência global. Essa diferença de tempo se explica pela dinâmica das empresas e famílias. Desde setembro de 2008, as vendas começaram a cair no Brasil. Depois, as demissões ganharam força e, em paralelo, bancos restringiram o crédito. Quem foi atingido pela situação tentou manter os compromissos em dia no início deste ano. Mas as parcelas se acumularam e só se transformam em inadimplência três meses após o vencimento. No financiamento para a compra de veículos, por exemplo, a inadimplência cresceu de 5,2% em abril para 5,4% em maio, no maior nível da série. No cheque especial, o calote passou de 10% para 10,8%, também o pior da história. "Quando a receita cai e há dívidas, seja em uma família ou empresa, é preciso reorganizar as contas ou pode-se entrar em uma bola de neve", diz o especialista em finanças pessoais Fábio Colombo. Nas empresas, os atrasos superiores a três meses alcançaram 3,2%, o mais elevado desde maio de 2001. Em abril, estava em 2,9%. "Essa é provavelmente a razão para as condições de crédito mais apertadas nesse segmento nos últimos meses", diz em relatório o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. Apesar do quadro negativo, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, aposta em melhora. "Com a restauração da oferta de crédito, a expectativa é de que a inadimplência volte a cair." Ele, porém, não quis fazer qualquer prognóstico sobre quando essa melhora deve acontecer. De fato, o saldo das operações de crédito tem apresentado alguma recuperação. Em maio, o valor cresceu 0,8% na comparação com abril. Essa expansão, porém, ocorreu apenas nas operações para pessoas físicas, que avançaram 1,5%. Nos financiamentos para empresas, houve retração de 0,8% no período. A queda é explicada principalmente pela valorização do real ante o dólar, que reduz o valor em moeda local dos empréstimos externos. No fim de maio, bancos mantinham R$ 1,259 trilhão em empréstimos. O valor representa 43% do Produto Interno Bruto (PIB). Para o Banco Central, o ano deve terminar com carteira equivalente a 45% do PIB. A estimativa anunciada ontem é um ponto porcentual maior que a projeção anterior. "As expectativas estão melhores porque estamos vendo uma recuperação mais rápida do mercado de crédito", disse Altamir.

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