Inadimplência dá sinais de trégua

Segundo dados do Banco Central, a concessão de crédito voltou a subir e o calote teve ligeira queda em junho, de 5.9% para 5,8%

FERNANDO NAKAGAWA , EDUARDO CUCOLO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2012 | 03h04

O calote deu uma trégua em junho. Após meses de piora contínua, a inadimplência de consumidores e empresas apresentou recuo, ainda que de forma muito suave, no mês passado. Ao mesmo tempo, o juro manteve a trajetória de queda dos últimos meses e o volume de novos empréstimos cresceu novamente. Para o Banco Central, é possível falar em uma inflexão no mercado de crédito, e já há motivos para comemorar.

O clima de celebração no BC é resultado da evolução da inadimplência, que teve oscilação mínima em junho. Em um mês, o porcentual das operações com atraso superior a 90 dias caiu 0,1 ponto entre consumidores, empresas e também na média geral. No mês passado, o calote recuou para 5,8% no total do mercado de crédito, sendo 7,8% entre as pessoas físicas e 4% no segmento corporativo.

Essa acomodação nos calotes era esperada há vários meses pelo BC e é resultado de três fatores, diz o chefe do departamento econômico da instituição, Túlio Maciel. "É efeito da redução da taxa de juro, da postura mais cautelosa dos bancos desde 2011 e do crescimento da massa salarial. São fatores que contribuem para a trajetória mais favorável da inadimplência", disse, ao comentar que a tendência deve continuar ao longo deste semestre.

Inflexão. A melhora da inadimplência completa a lista de reações do crédito, que, para a equipe econômica, apontam para uma inflexão nas condições do mercado. "Não é o mês, mas o momento representa uma mudança. Diria que estamos em um momento de mudança do mercado, com perspectiva de comportamento melhor da inadimplência e expansão (do crédito)", disse Tulio Maciel. Essa melhora, inclusive, é um dos motivos dos discursos otimistas feitos recentemente pelo presidente do BC, Alexandre Tombini.

Quanto ao crédito, prevalece o entendimento no governo de que as medidas anunciadas ao longo dos últimos meses provocaram reações positivas em três momentos. O primeiro resultado veio na queda do juro e do spread, que é a margem cobrada pelos bancos nos empréstimos. Esse efeito continua em evidência e as taxas continuam em queda: o juro médio pago pelos consumidores caiu de 38,8% em maio para 36,5% anuais em junho, o mais baixo desde 1994. Para empresas, a taxa também caiu e passou de 38,8% para 36,5%.

O segundo reflexo acontece nos volumes de financiamentos, que começaram a aumentar, especialmente nas pessoas físicas. Segundo o BC, os bancos emprestaram, na média, R$ 10,4 bilhões a cada dia de junho aos consumidores e empresas, valor 6% maior que em maio.

Por fim, o documento divulgado ontem sinaliza que a terceira reação está no calote. "Há a superação do momento mais crítico da inadimplência", disse o técnico do BC. Agora, Tulio Maciel afirma que o aumento do crédito vai ajudar na retomada do crescimento da economia no segundo semestre.

Cautela. Como tem ocorrido nos últimos meses, o mercado financeiro tem uma análise mais cautelosa. Para a LCA Consultores, a inadimplência dá, apenas, "sinais de estabilização". Para o economista-chefe da CM Capital Markets, Darwin Dib, "apesar da trégua na inadimplência em junho, ainda é cedo para tirar conclusões". "Vale lembrar que o patamar da inadimplência está elevado. Qualquer conclusão benigna baseada no resultado de junho será mera torcida", diz em relatório.

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