Inadimplência é recorde no cheque especial e veículos

O aumento da inadimplência em maio refletiu uma "parada brusca" nas fontes de financiamento, na avaliação do chefe de Departamento Econômico (Depec) do Banco Central (BC), Altamir Lopes. "Muitas empresas e famílias não têm como rolar a dívida e isso leva a uma inadimplência maior", comentou.

CÉLIA FROUFE E FERNANDO NAKAGAWA, Agencia Estado

25 de junho de 2009 | 13h16

Segundo ele, a falta de recursos foi fruto da crise financeira internacional, que teve seu auge em setembro do ano passado. Quando isso ocorreu, os bancos passaram a ser mais seletivos na oferta de recursos, o que trouxe dificuldades para o tomador. Assim, o consumidor deixou de ter à disposição crédito mais barato, como o consignado (com desconto na folha de pagamento) e o direto ao consumidor, e teve que adotar linhas mais caras, como a do cheque especial.

Nesta última categoria, a inadimplência atingiu em maio o maior nível da série histórica, iniciada em 2000. Dados do BC mostram que 10,8% das operações tinham atraso de pelo menos 90 dias. No mês anterior, essa parcela dos empréstimos era de exatos 10%. O juro médio cobrado no cheque especial chegou a 167,8% ao ano no mês passado, ante 166,3% ao ano em abril. Nessas operações, o spread médio também subiu, passando de 156,3 pontos porcentuais (pp) para 158,4 pp no período. Spread é a diferença entre o custo pago pelo banco para captar recursos e o juro que ele cobra dos clientes. Ainda de acordo com o BC, o saldo dos empréstimos com cheque especial caiu 2,5% em maio ante abril, para R$ 17,59 bilhões. Essa foi a primeira queda do valor emprestado no cheque especial após quatro meses seguidos de aumento do montante.

Ainda segundo dados do BC, a inadimplência nos financiamentos para a compra de veículos atingiu em maio o maior nível da série histórica, iniciada em 2000. No mês passado, 5,4% dos empréstimos para a compra de carros tinham parcelas com atraso de pelo menos 90 dias. Isso quer dizer que brasileiros tinham, no fim de maio, parcelas atrasadas que somavam R$ 4,4 bilhões. De acordo com o BC, a inadimplência no financiamento de veículos tem crescido gradualmente desde o fim de 2007.

Otimismo

Apesar do quadro negativo da inadimplência, que em maio atingiu a maior taxa desde setembro de 2000 - Altamir traçou um quadro positivo para o futuro. "Com a restauração das linhas (de crédito), a expectativa é de que a taxa de inadimplência volte a cair", previu. Antes disso, porém, segundo o chefe do Depec do BC, é provável que haja ainda mais alta da inadimplência. "Mas não dá para afirmar que isso ocorrerá."

Com a recuperação posterior do mercado, previu, há uma tendência de que o risco de calote fique menor e que o tomador volte e usar linhas menos onerosas. "O crédito já está voltando aos poucos", comemorou. Altamir evitou, porém, indicar em que período isso deve ocorrer de forma definitiva. "A queda deverá ocorrer a partir da regularização plena das linhas de crédito", limitou-se a dizer.

Para ele, quando o quadro de crédito se consolidar, a expectativa é de que se volte ao nível verificado antes do auge da crise financeira internacional. "Agora é que os números estão mostrando aquele ápice da crise. Os números de agora mostram nada mais do que o que já ocorreu", avaliou.

Para o chefe de Depec, a criação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) foi fundamental para a volta do mercado de crédito. "Tivemos depósitos expressivos a partir de meados de maio e isso bateu de pronto na pessoa física", disse. Segundo ele, já é possível observar uma maior disposição de linhas para esse segmento, fornecidas principalmente por bancos de pequeno e médio portes.

Spread

O chefe do Depec descartou a possibilidade de ocorrer um aumento dos spreads (diferença entre o custo pago pelo banco para captar recursos e o juro que ele cobra dos clientes) para os tomadores em razão do aumento da inadimplência. Segundo ele, os bancos agem preventivamente e o aumento das taxas cobradas visto até agora já fazia parte de uma estratégia de provisão pelas instituições financeiras.

Isso porque, de acordo com Altamir, só é considerada inadimplência a falta de pagamento superior a 90 dias. Até esse prazo, o calote é classificado apenas como atraso. "Os bancos têm acesso aos dados de atraso e verificam o que pode virar inadimplência, tratando o tema de forma preventiva", explicou.

Crédito a empresas

A abertura do mercado de crédito externo para as grandes empresas tem feito com que bancos voltem a emprestar mais para as companhias de menor porte. Tal movimento fez com que os spreads médios dos financiamentos às pessoas jurídicas subisse em maio. Segundo Altamir Lopes, esse aumento das operações para clientes de menor porte aumenta o risco das operações, o que faz com que as instituições financeiras elevem a margem cobrada na operação.

Outro fator que explica o aumento do spread nas operações para as pessoas jurídicas é o aumento da inadimplência. Em maio, a parcela dos empréstimos com atraso superior a 90 dias atingiu 3,2%, no maior nível desde maio de 2001, quando estava em 4,2%.

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