Matthew Abbott/The New York Times - 10/1/2020
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Incêndios testam a fórmula vencedora de crescimento da Austrália

Governantes têm sido pressionadas a enfrentar as mudanças climáticas e a avaliar a dependência do país do fornecimento de carvão para a China

Keith Bradsher and Isabella Kwai  , The New York Times

15 de janeiro de 2020 | 11h50

A notável prosperidade da Austrália se baseia em um ato de equilíbrio. O país extrai carvão, gás natural e minério de ferro de uma paisagem vulnerável. Recebe cada vez mais dinheiro da China ao mesmo tempo em que se alia aos militares dos EUA. Com incêndios devastadores arrasando seu campo, esse equilíbrio pode se tornar cada vez mais difícil de manter.

Os líderes da Austrália enfrentam crescente pressão para enfrentar as mudanças climáticas, já que os cientistas culpam as condições cada vez mais quentes e secas do país pelos desastrosos incêndios. Isso significaria avaliar a dependência da Austrália do fornecimento de carvão à China e a outros países.

O combustível fóssil, usado para acionar muitas das usinas e siderúrgicas do mundo, é uma das maiores exportações da Austrália. O carvão também é uma das maiores fontes de gases que estão na origem das mudanças climáticas e produz a maior parte da própria eletricidade da Austrália.

O primeiro-ministro Scott Morrison, líder conservador e aliado político do presidente Donald Trump, chegou ao poder em parte defendendo a indústria de mineração. Ele vê a ação da questão do aquecimento global como uma ameaça substancial a uma indústria que emprega diretamente 250 mil australianos e contribui para o trabalho de muitos mais.

Os incêndios provocaram uma discussão nacional sobre as mudanças climáticas e a economia do país. Além dos danos pessoais e ambientais causados pelos incêndios, eles afetaram o turismo, outra indústria essencial para a economia australiana. A posição de Morrison nas pesquisas de opinião pública está em queda por causa de sua postura em relação aos incêndios florestais.

Os incêndios "terão um enorme impacto político", disse Peter Drysdale, professor emérito da Universidade Nacional Australiana, um dos economistas mais famosos do país, e que mal saiu de sua casa em Canberra recentemente por causa da forte fumaça que se abate sobre várias regiões. “Somente um sistema político menos sensível não responderia a isso.”

Limitar a dependência de carvão da Austrália exigiria mudanças em uma das economias mais bem-sucedidas do mundo. A Austrália não tem recessão há quase três décadas. Enquanto o crescimento econômico desacelera, com as indústrias de construção e varejo vacilando, a indústria de mineração continua um ponto positivo.

As indústrias australianas de mineração e energia se beneficiam há muito do crescimento espetacular da China - que responde por quase dois quintos das exportações australianas. Uma vasta frota de navios transporta carvão do nordeste da Austrália e minério de ferro e gás natural liquefeito do noroeste da país para portos chineses.

O carvão por pouco fica atrás do minério de ferro como a maior exportação da Austrália, com o gás natural liquefeito logo em seguida. As exportações combinadas da Austrália, dos três recursos naturais, atingem cerca de 7.300 dólares australianos (o equivalente a US$ 5.039) por ano para cada adulto e criança no país, dando ampla influência política ao setor de mineração.

Ainda assim, os incêndios florestais são apenas um fator que força muitos australianos a questionar quanto tempo durará essa fórmula econômica.

Alguns temem que a Austrália tenha se tornado muito dependente da China em um momento em que os EUA pressionam aliados para manter alguma distância. No campo militar, a China se tornou cada vez mais forte no Oceano Pacífico na região. A China construiu a maior marinha do mundo. Estabeleceu relações estreitas com os vizinhos da Austrália no Pacífico Sul. E construiu bases aéreas em um arquipélago de ilhas artificiais do outro lado do Mar da China Meridional.

 Em casa, os eleitores australianos preocupam-se cada vez mais com a crescente influência do dinheiro chinês no cenário político do país. “Nossa economia é vitalmente dependente da China e, no entanto, nossos laços de segurança estão com os EUA, e nossa economia é vitalmente dependente de combustíveis fósseis, e ainda assim nosso cenário é relativamente exposto às mudanças climáticas”, explicou Chris Richardson, economista-chefe da Austrália na Deloitte.

Implantar mudanças na 14.ª maior economia do mundo não é tarefa fácil, não importa o quanto o governo possa fazer.

A Austrália não apenas queima carvão para gerar a maior parte de sua própria eletricidade, mas também exporta quase US$ 40 bilhões por ano do combustível, principalmente para o Japão, China, Índia, Coréia do Sul e Taiwan. Embora a China seja de longe o maior parceiro comercial da Austrália, o Japão tem sido seu maior cliente de carvão.

Pesquisas de opinião no país australiano ao longo dos anos descobriram maiorias consideráveis que defendem a ação sobre as mudanças climáticas. Mas, como nos EUA, com o Colégio Eleitoral, o sistema político da Austrália dá maior influência a algumas regiões do país do que a outras. Um beneficiário é o estado de Queensland, no nordeste do país.

Queensland é o principal estado produtor de carvão da Austrália. Desempenhou um papel fundamental quando Morrison liderou sua coalizão de centro-direita em uma inesperada vitória nas eleições em maio.

Os incêndios também chamaram a atenção para a vulnerabilidade da vital indústria de turismo vital do país. Os gastos com turismo excedem o valor combinado das exportações anuais de minério de ferro, carvão e gás natural da Austrália. Os próprios australianos representam cerca de três quartos desses gastos.

A indústria do turismo não foi tão afetada pelos incêndios florestais até agora, porque os conflitos ocorreram principalmente em comunidades menores. Mas a fumaça que chegou a cobrir o ar sobre Sydney e Melbourne pode ter seu custo. Os incêndios podem ter um efeito econômico muito mais amplo se prejudicarem a confiança do público e se tornarem os australianos mais cautelosos ao gastar dinheiro, disse Richardson. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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