Ahn Young-Joon/Ap
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Incerteza com recuperação da economia global derruba Bolsas

Perspectiva de redução dos estímulos nos Estados Unidos, após ata do Fed, e preocupação com cortes na produção de aço na China, também mexeram com a cotação do minério de ferro e do petróleo

Sergio Caldas e Niviane Magalhães, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 10h33
Atualizado 19 de agosto de 2021 | 19h08

Bolsas de Valores em todo o mundo registraram queda nesta quinta-feira, 19, após o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sugerir que poderá começar a reduzir suas compras de ativos antes do fim do ano e em meio a preocupações com os efeitos do avanço da variante Delta do coronavírus na economia global. O mercado de Nova York foi o único a escapar do mau humor generalizado.

Na quarta-feira, 18, o Fed revelou em ata de política monetária que discutiu em julho a possibilidade de iniciar o chamado "tapering" - como é conhecido o processo de gradual diminuição de compras de ativos - ainda em 2021. No documento, a entidade monetária ressaltou que esse fator reforça as incertezas sobre o cenário econômico global. No entanto, o Fed disse que a chance de um aperto antecipado não deverá afetar os juros, que deverão permanecer baixos.

"Os investidores reagiram negativamente às projeções sobre o aperto monetária dos EUA em meio ao enfraquecimento do impulso macro global, com o sentimento de risco enfraquecido com as vendas no mercado acionário", observa o Danske Bank.

Em resposta, na Europa, a Bolsa de Londres fechou em queda de 1,54%, a de Paris recuou 2,43% e a de Madri, 0,76%. Os índices de Frankfurt, Milão e Lisboa cederam 1,52%, 1,63% e 0,13% cada. Na Oceania, a Bolsa australiana seguiu o tom majoritariamente negativo da Ásia e caiu 0,50%.

Na Ásia, o movimento também foi de baixa. A Bolsa de Tóquio caiu 1,10%, enquanto o índices chineses de Xangai recuou 0,57%. A Bolsa de Hong Kong teve queda de 2,13%, a de Seul, de 1,93% - chegando no menor nível em quatro meses -, e a de Taiwan registrou expressiva queda de 2,68%. Temores de que o governo chinês torne ainda mais severa a regulação contra empresas de tecnologia derrubaram hoje as ações. Alibaba despencou 5,54% e Tencent sofreu tombo de 3,44%. 

Em Nova York, o dia começou negativo, mas os índices conseguiram recuperar parte da força no  início da tarde, em meio ao avanço das ações de tecnologia. O Dow Jones cedeu 0,19%, mas em compensação, o S&P 500 e o Nasdaq subiram 0,13% e 0,11% cada. A queda no número de pedidos de auxílio-desemprego, a 348 mil nos EUA, na semana encerrada em 14 de agosto, ajudou na recuperação. O recuo foi maior do que o previsto por analistas.

Minério em queda

Após atingir o pico em julho, o minério de ferro iniciou sua trajetória de queda que culminou na maior perda diária nesta quinta-feira, após desabar mais de 13%, a US$ 132,66, menor nível desde 30 de novembro de 2020. Em um mês, a desvalorização acumulada é de 40%, enquanto em todo o ano de 2021, a retração é de 17%. As perdas acontecem diante da junção das crescentes preocupações sobre cortes mais expressivos na produção de aço na China.

Em resposta, ações de mineradoras caíram em várias praças. Na Europa, a Anglo American despencou 8,35%, a Antofagasta, 4,45% e a Rio Tinto, 2,73%. As commodities também estão sendo pressionadas pela expectativa de que o "Fed possa em breve começar a reduzir o enorme estímulo que ajudou a elevar os preços no último ano", aponta um gestor, ao mesmo tempo que dados mais fracos nos EUA e na China reforçam a percepção de que a recuperação econômica global está perdendo força.

No entanto, o forte abalo no preço já vem desde quarta-feira, depois que a mineradora BHP alertou para a "probabilidade crescente de cortes severos" na produção de aço da China este ano em meio à tentativa do país de tentar reequilibrar sua produção com campanhas de redução de emissões de carbono, prejudicando a demanda pela matéria-prima usada para produzi-lo.

A World Steel Association estima que a produção de aço da China em junho foi de 93,9 toneladas métricas, queda de 5,6% em relação a maio. Em meio a isso, o JP Morgan avalia que as preocupações com a desaceleração da economia chinesa e os cortes na produção de aço geraram uma mudança no sentimento e que os preços da commodity devem se firmar em torno dos níveis atuais.

A propagação da variante Delta também pesa sobre as perspectivas. "A possibilidade de bloqueios representam ameaças significativas à atividade industrial. A disseminação da variante na América Latina pode prejudicar a produção nas minas, enquanto os bloqueios na China podem desacelerar a produção de aço e pressionar os preços do minério de ferro", disse Sanjeeban Sarkar, especialista em commodities na The Economist Intelligence Unit (EIU).

Petróleo também cede

A pressão do dia também afetou os contratos de petróleo, que atingiram os menores níveis desde maio nesta quinta. Em Nova York, o barril do petróleo WTI com entrega prevista para outubro encerrou a sessão em baixa de 2,62%, a US$ 63,50, e o do Brent para igual mês cedeu 2,68%, a US$ 66,45, em Londres.

Segundo o Commerzbank, o Brent registrou hoje sua quinta queda consecutiva, algo que não acontecia há dezoito meses. Pesaram ainda sobre os preços a preocupação com a queda da demanda por combustível em economias desenvolvidas, diante do iminente fim da temporada de verão nestes países.  

Também na Europa, ações de petrolíferas foram duramente penalizadas. Os papéis da Royal Dutch Shell cederam 3,82% e os da British Petroleum, 4,92%. A francesa Total teve queda de 3,76%. No mercado americano, Chevron cedeu 2,49% e ExxonMobil, 3,05%. /COM INFORMAÇÕES DA DOW JONES NEWSWIRES

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