"Incerteza conjuntural" sustenta o juro, diz Copom

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) considerou em sua última reunião, na semana passada, que apesar das perspectivas de inflação serem "favoráveis" no cenário básico utilizado pela Autoridade Monetária, o aumento da incerteza conjuntural impõe "dúvidas" sobre a materialização desse cenário, o que justificou a decisão de manter a meta da taxa Selic em 18,5% ao ano. Contudo, os diretores do BC ressaltam que à medida que o mercado financeiro se "normalize", com a estabilização dos preços dos ativos e da taxa de câmbio em patamares que reflitam "mais adequadamente" os fundamentos da economia, será reforçada a perspectiva de queda da inflação para os próximos 18 meses, o que poderá permitir a redução da taxa de juros. Por isso, os diretores do BC resolveram adotar o viés de baixa para a meta da taxa Selic. "Levando-se em conta que a instabilidade recente não reflete os fundamentos atuais da economia brasileira e, portanto, pode ser considerada temporária, o Copom avaliou que a situação recomenda a sinalização da possibilidade de redução da taxa de juros antes da reunião de julho", explicam os diretores na ata da última reunião, divulgada hoje pelo BC. A decisão de manter a meta da taxa Selic em 18,5%, com indicação de viés de baixa, foi unânime. O cenário básico para os próximos 18 meses que tem sido utilizado pelo Copom aposta na manutenção da trajetória de queda da inflação neste período. Entretanto, essa queda pressupõe a manutenção de dois componentes. Em primeiro lugar, a confirmação de que em 2003 será mantida uma política econômica "comprometida" com a estabilidade fiscal e as metas de inflação. Do outro lado, a necessidade de que a transição para o futuro governo ocorra "sem turbulências exageradas e/ou prolongadas". "Nesse cenário básico, a inflação dos preços livres deve manter sua trajetória de queda, e a inflação medida pelo IPCA deve ficar compatível com as metas estabelecidas pelo governo", afirmam os diretores do BC na ata da última reunião do Copom. Redução recomendávelA confirmação do cenário básico utilizado pelo Comitê sugere, na opinião dos diretores, que seria "recomendável" a redução da taxa de juros por três motivos principais. Em primeiro lugar, porque a projeção para a inflação de 2003 está "significativamente" abaixo da meta estabelecida. Em segundo, porque as expectativas de inflação indicam "confiança" numa trajetória declinante da inflação nos próximos 18 meses. Por último, porque, não obstante a projeção da inflação para 2002 encontrar-se "um pouco acima" do centro da meta, esse desvio reflete o aumento recente da volatilidade dos mercados, em especial da taxa de câmbio, o que é entendido pelos diretores do BC como "temporário". Entretanto, o Copom decidiu manter a meta da taxa Selic em 18,5% ao ano por entender que existem riscos do cenário utilizado não se materializar. "À medida que persistirem a incerteza em relação ao futuro da economia do País e a conjuntura adversa recente, caracterizada por depreciações acentuadas dos preços dos ativos e da taxa de câmbio, corre-se o risco de um aumento dos projeções de inflação para 2002 e 2003", explicam os diretores. "Em particular, colocar-se-iam em questão o caráter temporário da variação cambial e a magnitude do seu repasse aos preços, não obstante os fatores que poderiam inibir o repasse cambial descrito", completam.InflaçãoApesar de considerar que a tendência da trajetória de inflação seja de queda, o Copom revisou, para cima, sua projeção para a variação do IPCA em 2002. De acordo com a ata da última reunião do Comitê, a atual projeção para a variação do IPCA em 2002 indica que a inflação deverá fechar o ano "em torno" de 5,5%, teto da meta definida pelo governo. Na reunião do Comitê em maio, a projeção utilizada pelo BC indicava que o IPCA fecharia o ano com uma variação "abaixo" do limite superior (5,5%) da meta estabelecida para este ano (3,5%). Os diretores do BC argumentam, no documento, que o impacto da inércia da inflação de 2001 para 2002 faz com que a projeção para a variação do IPCA este ano fique no intervalo entre 4,5% e 5%.Preços em altaO Copom revisou, para cima, todas as suas projeções com relação aos reajustes de preços de tarifas públicas, energia elétrica e gás de cozinha e diminuiu sua estimativa com relação ao porcentual de queda dos preços da gasolina este ano. Os diretores do BC estimam que os preços da gasolina sofrerão uma redução de 4,5% em 2002, devido às quedas ocorridas em janeiro e fevereiro. A perspectiva anterior do Copom era de uma queda de 6,6% destes preços em 2002. Para o gás de cozinha, o Comitê projeta um aumento de aproximadamente 28% este ano, ante 26,5% na reunião anterior. Os diretores do BC ressaltam que cerca de 21,5% deste aumento projetado já ocorreu entre janeiro e maio. "O aumento das projeções para esses produtos foi parcialmente compensado por um reajuste desses produtos no IPCA menor do que o esperado para o mês de maio", argumentam os diretores na ata da última reunião.Para a eletricidade, os diretores do BC projetam um aumento médio de 19,4% para 2002, ante projeção anterior de 18%. Para 2003, a projeção para o reajuste de energia elétrica diminuiu de 13,6% (estimado na reunião de maio) para 12,3%. Para o conjunto dos chamados preços administrados por contrato e monitorados (que incluem as tarifas públicas), a projeção de reajuste é de 8,1%, ante 7,6% previstos na reunião do Comitê em maio. "A elevação da projeção ocorre basicamente da depreciação cambial ocorrida entre as reuniões do Copom de maio e junho, mas foi atenuada pelo comportamento do preço internacional do petróleo e seus derivados", justificam os diretores do BC. Para 2003, a projeção para o reajuste dos preços administrados é de 6,1%, um aumento de 1,6 ponto porcentual em relação ao estimado em maio. "O aumento na projeção para 2003 deve-se aos efeitos da depreciação cambial, a um aumento no preço futuro dos derivados do petróleo para o próximo ano e à alteração na hipótese de reajuste de itens específicos", explicam.O Comitê de Política Monetária também alterou sua projeção para a trajetória dos ?fed funds? e para o risco Brasil. De acordo com a ata da última reunião, a trajetória dos ?fed funds? foi alterada para refletir uma taxa média dos juros norte-americanos, de 1,75% no segundo trimestre deste ano. Essa taxa média eleva-se para 2,25% no primeiro trimestre de 2003, permanecendo constante em 2,5% a partir do segundo trimestre. Em relação ao risco Brasil, o Copom projeta um prêmio de risco soberano, baseado no spread do bônus global 08, que parte do patamar médio do atual trimestre, de 940 pontos-base, e declina gradualmente para atingir 700 pontos-base em 2003. Na véspera da reunião do Copom, esse prêmio atingiu 1.500 pontos-base.

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