EFE/Marcelo Sayão
EFE/Marcelo Sayão

Incerteza eleitoral explica 78% da alta do dólar em 2018

Apesar de exterior pressionar emergentes, indefinição do próximo governo faz moeda subir três vezes mais

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 04h00

O Brasil não teria como escapar da alta do dólar em 2018, uma vez que todos os emergentes viram sua moeda se desvalorizar ante a divisa americana com as turbulências do cenário externo. Porém, a latente incerteza quanto ao veredicto das urnas em outubro é a grande responsável por fazer o dólar disparar a perder de vista por aqui.

Segundo cálculos da Tendências Consultoria Integrada feitos a pedido do Estado, dos R$ 0,79 que a moeda americana subiu ante o real do começo do ano até a última sexta-feira – de R$ 3,31 a R$ 4,10 – 77,8% (R$ 0,62) são resultado da piora de percepção no cenário doméstico, decorrente sobretudo da indefinição sobre o próximo governo e, consequentemente, sobre a política econômica que será adotada a partir do ano que vem.

Isso significa que, não fosse a incerteza eleitoral que ronda o País este ano, o dólar teria tido apenas um quarto da variação observada no ano, e estaria na casa de R$ 3,50.

Para decompor essa alta cambial, o economista da consultoria Tendências responsável pelo cálculo, Silvio Campos Neto, levou em conta primeiramente quanto o dólar subiu nas outras economias, por meio do dollar index, que utiliza uma cesta de 26 moedas. Depois, ele avalia a alta da percepção de risco dos investidores internacionais em relação ao Brasil – e a compara com a variação observadas nas principais economias da América Latina.

“Por meio desse modelo, conseguimos eliminar componentes comuns a outros países e analisar somente o impacto dos fatores domésticos”, observa Campos Neto. “A alta do prêmio de risco do Brasil reflete tudo que afeta o sentimento do investidor estrangeiro, e a grande variável é a questão fiscal – se o próximo presidente vai honrar a agenda macroeconômica de reformas.”

 Já o cenário externo, segundo o levantamento, contribuiu com cerca de R$ 0,17 (21,7%) na alta do dólar este ano. As turbulências internacionais, causadas sobretudo por desdobramentos da guerra comercial capitaneada por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, tem impacto mais forte nos países emergentes, com maiores desequilíbrios macroeconômicos e, portanto, mais fragilidades.

“Primeiro, a economia americana está forte e o Fed (Federal Reserve, banco central americano) está subindo juros”, observa o economista. “Além disso, vimos uma escalada protecionista e o aumento do risco decorrente da questão comercial entre Estados Unidos e China.” Também contribui para a variação (4,5%) a queda do preço das commodities , uma vez que o Brasil é um grande exportador.

Percepção de risco praticamente dobrou 

A piora de percepção de risco é medida por meio do Credit Default Swap (CDS), que é uma espécie de seguro contra calote e funciona como um dos principais medidores de risco entre as economias. Quanto mais alto é o CDS de um país, mais receio os investidores têm de investir ali. 

No início do ano, o CDS do Brasil estava na casa de 160 pontos. Já nesta quinta-feira, 30, beirava os 300 pontos – uma alta de 140 pontos, inferior somente à Argentina, que viu sua pontuação crescer mais de 450 pontos no período. Em uma severa crise econômica, o banco central do país elevou a taxa de juros de 45% para 60% ao ano. 

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