Daniel Teixeira/Estadão
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Incerteza fiscal e medo de segunda onda da covid-19 começam a derrubar IPOs na Bolsa brasileira

Candidatas a abrir capital na B3 temem a deterioração das condições do mercado e já cancelam ou reduzem o valor das ofertas; cenário também deixa o investidor mais seletivo

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 09h00

A maior volatilidade dos mercados com o aumento das preocupações em relação à segunda onda da covid-19 e a recuperação econômica da Europa e a incerteza fiscal no Brasil começaram a derrubar candidatas, da lista de mais de 50 empresas, a abrir capital na Bolsa brasileira. A mais recente foi uma companhia da Cosan, a Compass, que concentra a participação do grupo na Comgás. A oferta inicial somaria R$ 5 bilhões e a Compass alegou deterioração das condições do mercado para cancelar o lançamento das ações. Na semana passada, o banco BR Partners e Caixa Seguridade já haviam anunciado que deixariam as ofertas para depois.

Apesar do cenário mais desafiador para levar uma nova empresa à Bolsa, a leitura é de que a oportunidade para ofertas iniciais (conhecida no mercado por janela) não está fechada. Algumas têm sido bem sucedidas, como a Hidrovias do Brasil e a incorporadora Melnick, que fizeram sua estreia na semana passada. A do birô de crédito Boa Vista está marcada para quarta-feira, dia 30. A Santos Brasil também fez uma oferta subsequente na semana passada.

"Com a queda nas taxas de juros, a migração do capital para a Bolsa é inevitável e o movimento estimula o empresário que quer crescer a abrir o capital", diz Tiago Isaac, especialista em mercado de capitais e governança corporativa. "Com essa volatilidade, os investidores pedem um desconto adicional para entrar nas ofertas, o que desmotiva o empresário a seguir adiante. Nenhum cancelamento até agora foi por falta de demanda, mas sim por preço."

Além das incertezas externas maiores, o investidor está mais seletivo por causa de dúvidas em relação às contas públicas do Brasil. O ingrediente interno, principalmente após o governo anunciar que pretende usar parte dos recursos do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) e de precatórios para bancar o novo programa social que substituirá o Bolsa Família, o Renda Cidadã, acabou de azedar de vez o humor do mercado

O aumento do escrutínio dos investidores - e fim da euforia - já tinha sido sinalizado com a pressão pela redução dos preços nas ofertas ao longo das últimas semanas. Dentre elas, três controladas da Cyrela, Lavvi, Plano & Plano e Cury. A rede de farmácias Pague Menos também seguiu por esse caminho para atrair os investidores. Mesmo a Vitru, controladora da Uniasselvi, que na semana passada estreou na Bolsa norte-americana Nasdaq, teve de colocar o preço para baixo. Antes disso, Riva 9 e You Inc, ambas do setor imobiliário, haviam suspendido suas operações. Em comum, as empresas que tiraram as ofertas da mesa neste momento não aceitaram reduzir o valor inicialmente proposto. Vão esperar momento melhor.

Muitos investidores acharam a oferta da Compass cara, mas havia um fluxo de pedidos pelos papéis que seriam lançados. O cenário mudou na semana passada, com a grande piora do humor dos investidores. "A conjuntura do momento é muito relevante para que a oferta inicial seja lançada e concluída", afirma Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos. "Com a piora, a demanda cai e o preço almejado por investidores pode não ser o mesmo que empresários e vendedores buscam. A maior incerteza no campo fiscal afeta os juros e reduz a avaliação das empresas."

Preços em baixa

Outro ponto que começa a tirar a atratividade das novatas, segundo a equipe da Suno Research, é o fato de as empresas já listadas estarem com os preços em baixa. "Os investidores podem estar simplesmente preferindo alocar seu capital em empresas que já possuem um histórico maior e mais comprovado de entrega de resultados", diz a casa de análise.

Mesmo diante da crise que eclodiu com a pandemia, o número de candidatas a abrir capital cresceu muito rapidamente. Os juros baixos e os estímulos monetários internacionais vinham, até aqui, fazendo com que os investidores deixassem de lado preocupações em relação à retomada da economia. Em 2020, a Bolsa brasileira já foi palco de mais de 30 ofertas de ações - metade IPOs. O volume das emissões, no total, passa de R$ 70 bilhões.

Para as próximas semanas, há ainda uma fila de empresas com data programada para estreia na B3. Na quinta-feira, por exemplo, a construtora Pacaembu precifica sua oferta. No mesmo dia, a Suzano coloca o valor de sua ação na oferta subsequente (follow on) para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) venda sua participação na empresa de papel e celulose. Há ainda a Sequoia Logística e o Grupo Mateus, que teve a oferta lançada com alta demanda.

Diante da seletividade, algumas empresas que já tiveram conversas preliminares com investidores, caso da varejista de moda esportiva Track & Field, vão deixar a oferta para depois. A Havan está em ritmo intenso de conversas com investidores, ainda com a expectativa de estreia em novembro.

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