Incerteza política trava migração de investidor para fundos de renda variável

Turbulência interrompe busca maior do investidor por fundos de ações e multimercado no atual ciclo de queda de juros

Karla Esportono, O Estado de São Paulo

10 Julho 2017 | 05h00

Os gestores de fundos brasileiros começam o segundo semestre sob um risco. O setor vai reviver 2016, um ano de turbulência política e fuga para aplicações seguras? Ou retomará o que era observado até maio passado, com ingresso recorde de recursos em fundos de renda variável?

Gestores ouvidos pelo Estadão/Broadcast apontam uma certeza: o agravamento da crise política estimulado pelas gravações comprometendo o presidente Michel Temer, reveladas na noite de 17 de maio, foi capaz de interromper uma clara tendência de maior disposição ao risco em busca de mais retorno pelo investidor nesse atual ciclo de queda de juros. A tendência, porém, ainda não foi revertida. Os números do setor mostram que não há uma corrida de saques, mesmo com o caos político.

Até as categorias evitadas no passado, como multimercados e ações, terminaram o semestre com saldo positivo. “Depois do evento, o ritmo de ingresso de recursos diminuiu, mas não inverteu a ponto de começar a resultar em resgate”, afirmou o vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Carlos Ambrósio, em teleconferência. Por conta disso, a indústria de fundos teve a maior captação líquida (R$ 113,6 bilhões) em um semestre desde o início da série histórica, em 2002. No primeiro semestre de 2016, o montante havia ficado em R$ 44,3 bilhões.

Com captação líquida positiva tanto em maio quanto em junho, os fundos de ações encerraram os primeiros seis meses com cerca de R$ 500 milhões de saldo positivo entre aplicações e resgates, expurgado o efeito da amortização de dois grandes fundos do Banco do Brasil num total de R$ 3,75 bilhões. Já os multimercados acumularam um saldo líquido de R$ 39 bilhões no semestre.

Travado. Segundo gestores, o surgimento da delação da JBS travou a migração do investidor de fundos ultraconservadores – como os DIs – para fundos de ações e multimercados. “Pela primeira vez em quatro anos, víamos captação líquida nos fundos de ações. Mas essa migração para o risco foi colocada em xeque em maio. E, em junho, podemos dizer que praticamente parou de entrar dinheiro em renda variável e voltou a entrar em fundo DI”, disse o estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial do Santander Asset Management, Aquiles Mosca. “Os multimercados também estavam respondendo por uma parcela grande dos recursos aplicados.”

Na gestora do Santander, quase um terço dos novos recursos entrou nessa categoria. Um dos fundos muito procurados, segundo o estrategista, foi o Multimercado Multiestratégia. Segundo os dados no módulo Fundos do Broadcast, esse fundo encerrou o semestre com cerca de R$ 1 bilhão. Na gestora do Bradesco, a BRAM, a estratégia multimercado macro foi a que registrou uma das maiores captações líquidas do ano: R$ 1,9 bilhão. “Temos cerca de R$ 2,7 bilhões em patrimônio”, afirmou o diretor de Investimentos Ricardo Almeida. Um dos fundos dessa estratégia entregou, , no primeiro semestre mais de 130% do CDI.

Corte de risco. O impacto dos áudios de Joesley Batista com Temer também mobilizou os gestores a cortar o risco das carteiras, reduzindo as posições em ações, por exemplo, e aumentando o montante depositado no caixa dos fundos. “No nosso fundo ‘long biased’, estávamos 100% comprados até o dia 17 de maio. Víamos as reformas sendo feitas, o dólar mais baixo, a inflação sob controle. Depois dessa data, fomos reduzindo (a posição comprada) e hoje estamos com 50%”, afirma o CEO e gestor de renda variável da XP Gestão, Marcos Peixoto. 

Apesar do forte aumento de caixa, um dos fundos “long biased” (que mantêm tanto posições compradas como vendidas, possibilitando ganhos também quando o preço da ação cai) da gestora encerrou o semestre com cerca de 6% de ganho no semestre, mais, portanto, que o Ibovespa (+3,5%).

O executivo da XP afirma que a incerteza é tão grande que tanto impede um gestor de “arriscar muito agora” quanto de ser “megapessimista”. Peixoto e também o gestor de renda variável da Fator Administração de Recursos (FAR), Daniel Utsch, afirmam, porém, que o atual contexto de inflação controlada e queda de juros foram positivos para a valorização das empresas listadas em Bolsa. O gestor da XP também menciona o fato de a rentabilidade na renda fixa continuar decrescente. “Mesmo que a economia não cresça, o investidor tem de migrar a carteira da renda fixa para mais risco com juros a 8% ao ano.”

Mais conteúdo sobre:
finanças pessoais

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.