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Incerteza puxa incerteza

Essa história de que a reforma da Previdência ficou para fevereiro parece conversa de pinguço, em que sempre a um novo prazo para largar a bebida

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 16h00

Não decolou. Falta avaliar agora as consequências.

Essa história de que a reforma da Previdência ficou para fevereiro parece conversa de pinguço, a de que, no mês que vem, largará definitivamente a bebida. Como sempre haverá mês que vem, chega um dia em que ninguém mais acredita.

Se o governo não conseguiu emplacar a reforma neste ano, para quando investiu toda a energia fiscal e política de que dispunha, mais dificilmente conseguirá em fevereiro e mais dificilmente ainda conseguirá quanto mais perto chegar das eleições.

Para esse desfecho atuaram duas forças. A primeira, a das corporações, especialmente as dos funcionários do setor público, que boicotaram e continuarão a boicotar quaisquer mexidas nas regras das aposentadorias deles. A segunda, o esgotamento do capital político deste governo, que gastou demais nas duas tentativas do Ministério Público de apear do poder o presidente Temer.

As próprias autoridades do atual governo já cantaram o que vem aí. Há só uma semana, o Banco Central avisara que a falta de reforma da Previdência aumentaria a incerteza e esse aumento de incerteza turvaria a trajetória da inflação. Uma hora antes do anúncio do adiamento da reforma pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o ministro da Fazenda anunciara novas projeções de aumento do PIB e acompanhou esse anúncio com afirmações de que, sem a reforma, não dava para apostar firme nesse crescimento.

Em nota oficial, a agência Moody’s, uma das três mais importantes avaliadoras de risco, advertiu que a falta da reforma provoca derrubada do crédito dos títulos do Brasil. Com isso, a perspectiva de novo rebaixamento da classificação de risco aumentou, porque as condições das contas públicas se deterioram. Convém lembrar de que o rombo da Previdência, que deve atingir R$ 184,2 bilhões neste ano, aumenta à proporção de R$ 50 bilhões por ano. E, na semana que passou, o Orçamento da União ostentou déficit de R$ 14 bilhões nas receitas previstas e de R$ 7,4 bilhões em cortes a menos, por falta de decisão do Congresso. Curiosamente, a trajetória do Credit Default Swap, que funciona como seguro contra calote da dívida do Brasil, continua se comportando como se o risco não estivesse aumentando (ver o Confira).

Os primeiros sintomas de nervosismo começam a ser manifestados pelo mercado financeiro. Não foi à toa que o Índice Bovespa resvalou de 77 mil para os 72,6 mil pontos registrados nesta sexta-feira. As cotações do dólar também começam a empinar. Em dezembro, subiram 1,13%. E, apesar da queda inflação e do mergulho da Selic, a curva de juros de longo prazo começa a se elevar.

É verdade que o adiamento da reforma da Previdência não é o único fator de incerteza e talvez não seja o maior deles. Há dois outros nos radares: o desfecho que vier a ser dado à candidatura Lula à Presidência da República pelo julgamento em segunda instância agendado para 24 de janeiro; e o aparecimento (ou não) de uma forte candidatura de centro, que seja capaz de viabilizar as reformas.

Mais do que isso é cair no jogo de búzios, algo que foge ao âmbito da Coluna.

CONFIRA:

» Entenda o CDS de 5 anos

O Credit Default Swap é um contrato de proteção contra o risco de calote de um país. Quem compra tal seguro remunera o vendedor do contrato até o vencimento, de 5 anos. O vendedor, por sua vez, paga um prêmio caso o calote ocorra. Os contratos são negociados no mercado internacional da mesma forma que dólar ou ações: quando o prêmio sobe, é indicativo de que os investidores acreditam em maior chance de um calote pelo país. Nesta sexta-feira, esse prêmio foi negociado a 167,5 pontos-base, equivalente a 1,675% ao ano.

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