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Incerteza quanto a capacidade de rolagem de títulos justifica crise, diz analista

A turbulência financeira pela qual o Brasil vem passando nos últimos dias, com o câmbio se desvalorizando e o risco país subindo, é excessiva e tem a raiz na deterioração de risco dos agentes econômicos em relação à rolagem dos títulos públicos federais em função da denominada "crise das LFTs", que provocou perdas para a maioria dos aplicadores em fundos de renda fixa. A avaliação é do economista-chefe do BicBanco, Luiz Rabi. "O grande risco é que tenha se instaurado um ciclo vicioso de perda de credibilidade sobre solvência fiscal", disse.Segundo ele, para cobrir o déficit em conta corrente e rolar as amortizações da dívida externa, o Brasil precisará este ano de US$ 45 bilhões. Mas por uma série de motivos, como a queda das bolsas internacionais, crises em países latino-americanos, tensão entre Índia e Paquistão, entre outros, a liquidez para rolagens de dívidas de países emergentes está baixa. Soma-se a tudo isso o fato de o Brasil estar passando por um processo eleitoral e as dúvidas quanto à política econômica a partir de 2003. Neste cenário, há sérias dificuldades de o Brasil conseguir os dólares que precisa no exterior para zerar as contas externas. "Dólares irão faltar e, diante disto, a taxa de câmbio se desvaloriza e o dólar mais alto impede que o BC reduza os juros e, assim, a economia não cresce, o que já vem ocorrendo", disse o chefe dos economistas do BicBanco.Para ele, os juros altos e dólar mais encarecem a dívida mobiliária federal e, como a economia não cresce, a relação dívida/PIB, que já é alta, aumenta ainda mais. "Isso gera mais desconfiança quanto à solvência futura da dívida, acarretando nova alta do risco Brasil, do dólar, dos juros e de outras variáveis. E assim o ciclo de alta aumenta", diz Luiz Rabi. SoluçãoPara quebrar este ciclo, que envolve a necessidade de dólares e a dificuldade de consegui-los, diz o chefe dos economistas do BicBanco, seria necessário um novo e duro ajuste fiscal para impedir o crescimento da relação dívida/PIB. Paralelamente a isso, diz, seriam necessárias também intervenções diárias do BC no mercado de câmbio, como ocorreu no ano passado, não para conter a especulação, mas para garantir liquidez às empresas que precisam honrar os compromissos externos sem maiores pressões sobre a taxa de câmbio. "Também ajudaria neste processo se os atuais pré-candidatos à sucessão presidencial tornassem mais claras as suas diretrizes de política econômica a partir de 2003", diz Rabi.Segundo ele, a raiz do problema é a vulnerabilidade externa do País e a alta dependência de recursos captados no mercado internacional para equilibrar o balanço de pagamentos. "Enquanto isto não for resolvido, e isto não se resolve da noite para o dia, nunca teremos sossego. Nunca conseguiremos construir uma trajetória de crescimento sustentado para o País, afirma Rabi.A sensibilidade do mercado a sucessão presidencial a que Rabi se refere ficou patente na sexta-feira, quando o dólar registrou ligeira queda, a bolsa subiu e o risco Brasil cedeu um pouco por causa de boatos sobre uma pesquisa eleitoral do Datafolha, que acabou se confirmando, com o candidato governista, o senador José Serra (PSDB-SP), com alguns pontos a mais na preferência do eleitor e o principal candidato da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, com uma pequena queda na intenção de votos.

Agencia Estado,

09 de junho de 2002 | 10h18

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