Incerteza se reflete nos orçamentos das empresas

As empresas estão sendo obrigadas a fechar o orçamento para o ano que vem com números provisórios, por causa do cenário de incertezas que predomina no mercado. Neste ambiente, as projeções para o comportamento do dólar, dos juros, da inflação e dos negócios para 2003 são uma incógnita. O orçamento final só deverá ser definido após o resultado das eleições, quando se terá uma indicação mais clara sobre os rumos da nova política econômica. Por enquanto, a grande aposta é nas exportações. As estimativas preliminares das empresas são de que o dólar médio fique entre R$ 2,80 e R$ 3,40, o que garante uma certa rentabilidade no mercado externo. Além disso, as companhias prevêem que os juros serão mantidos em níveis elevados e que a inflação será maior no ano que vem, reduzindo as chances de crescimento mais vigoroso no mercado doméstico. O Grupo Votorantim, que hoje exporta cerca de US$ 600 milhões, o que corresponde a 20% do seu faturamento líquido, quer ampliar essa participação para 29% no ano que vem. A empresa espera atingir um faturamento líquido de R$ 10 bilhões em 2003, contra uma projeção de R$ 8,7 bilhões neste ano. "Nosso orçamento é provisório. Estamos esperando o resultado das eleições para termos uma idéia do que será o cenário econômico do próximo ano e fecharmos um orçamento definitivo em novembro", diz o diretor de Planejamento da holding Votorantim Participações, Leon Dakessian. Segundo ele, todos os investimentos serão mantidos. A previsão inicial é destinar cerca de R$ 1,5 bilhão para a continuidade de projetos de expansão de produção nas áreas de celulose, alumínio, siderurgia e mineração de zinco e níquel. Na Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), por exemplo, a produção anual deverá passar das atuais 240 mil toneladas para 340 mil até 2004. "Todos os nossos projetos de expansão são direcionados para o mercado externo", diz Dakessian. O Grupo Votorantim exporta hoje principalmente para a União Européia, Estados Unidos e Ásia. De acordo com o diretor de Planejamento, o mercado chinês está ganhando importância nos negócios do grupo. A General Motors também está buscando novos mercados para os seus veículos. Índia, China e Egito são alguns dos novos clientes da montadora, que deve exportar este ano US$ 1 bilhão, o que corresponde de 20% a 25% do faturamento total da subsidiária brasileira. No orçamento de 2003, a previsão é que as exportações passem a responder por 30% das vendas, segundo o vice-presidente da GM, José Carlos Pinheiro Neto. Segundo ele, o mercado interno de veículos no ano que vem deverá manter as mesmas 1,6 milhão de unidades previstas para 2002. "Estamos imaginando manter a nossa participação de 23% nesse mercado, o que será uma grande vitória." Nos últimos três anos, a companhia investiu US$ 1,5 bilhão no País. O orçamento para 2003 prevê investimentos de US$ 1 bilhão em novos produtos e tecnologia, que devem ser concluídos até 2004. Novos mercadosNa contramão da estagnação do mercado interno, Pinheiro Neto conta que a GM está concluindo um contrato de venda de 35 mil a 40 mil veículos prontos por ano para um novo mercado, que mantém sob sigilo. "O negócio deverá ser fechado até o primeiro trimestre de 2003." O aumento das exportações também é meta de fabricantes de geladeiras, fogões e freezers, entre outros. A BSH Continental, por exemplo, espera aumentar em dez pontos porcentuais a participação das vendas externas no faturamento total da companhia em 2003. De acordo com o vice-presidente comercial da BSH, Luiz Carlos Piton, além da desvalorização do real em relação ao dólar, a competitividade dos produtos fabricados aqui garantem o bom desempenho das vendas externas. "O Brasil é base mundial de produção da BSH de geladeiras frost-free e da linha de fogões." As exportações hoje são para países da América Latina, União Européia e Oriente.Segundo ele, o orçamento da companhia alemã será fechado até o fim deste mês e não prevê mudança em função dos resultados das eleições. Piton diz que a companhia trabalha com a estimativa de que a cotação média do dólar será de R$ 3,15 em 2003. "Acreditamos que após a eleição o dólar vá se estabilizar." A empresa tem planos de investir entre R$ 30 milhões e R$ 35 milhões em 2003. Neste ano, estão sendo gastos R$ 25 milhões para investimentos, que incluem um centro de distribuição em Jundiaí (SP). A subsidiária brasileira da John Deere, líder mundial de máquinas agrícolas, espera repetir no ano fiscal que começa em novembro o mesmo faturamento alcançado neste ano, que foi de R$ 900 milhões (20% maior do que o registrado em 2001). "O desempenho de 2002 foi muito bom e mantê-lo em 2003 será melhor ainda", diz o diretor-financeiro da companhia, Arlindo de Azevedo Moura. Hoje, 20% das vendas da John Deere no Brasil são para o mercado externo. A perspectiva é a de manter essa proporção em 2003. Mas caso ocorra alguma retração nas vendas domésticas, a empresa está preparada para ampliar as exportações para entre 30% e 35% do faturamento, buscando novos mercados na África e no México, por exemplo. "Nossos produtos são globais, por isso é fácil redirecioná-los para outros mercados." Moura ressalta que a previsão otimista de vendas para 2003 está baseada no desempenho favorável da agricultura brasileira este ano e na expectativa de expansão de 10% na área de soja que está sendo plantada. Quanto aos indicadores macroeconômicos usados como parâmetro para o orçamento do ano que vem, a companhia leva em conta que a taxa básica de juros (Selic) deverá ficar no patamar de 18,5% ao ano. O diretor faz questão de frisar que o orçamento de 2003 terá revisões trimestrais, independemente da orientação da política econômica que venha a ser adotada pelo novo presidente da República. "Trabalhamos com a hipótese de ter um primeiro trimestre fraco em 2003. Se isso se confirmar, vamos buscar alternativas no comércio exterior."

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