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Incertezas a granel (2)

Podemos estar perto de um realinhamento maior do que imaginávamos

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2017 | 17h00

Se a eleição de Donald Trump colocou num nível inédito de incerteza o curso futuro da política e da economia americana, a situação da Europa não é menos preocupante, mesmo considerando que a região vem apresentando algum crescimento econômico.

A primeira questão a observar é que teremos três eleições fundamentais em 2017: na França, na Holanda e na Alemanha. Em todos os casos, o projeto de integração europeia será testado, pois os grupos nacionalistas estão vendo seu prestígio crescer perante o público.

Por exemplo, é possível que Marine Le Pen passe para o segundo turno no pleito presidencial. Mesmo que esses grupos não assumam o poder (como é quase certo, na Alemanha, pelo menos), a oposição ao projeto europeu vai aumentar.

A questão migratória continuará presente no cenário, embora o número de viajantes no mar Mediterrâneo tenha diminuído no ano passado, em relação a 2015, graças a acordos com Grécia e Turquia. Entretanto, ambos os países estão em situação difícil, quer pela continuidade da crise econômica, no primeiro caso, quer pela arapuca em que a Turquia se meteu ao decidir participar mais ativamente da guerra na Síria.

Ao mesmo tempo, a Itália, que é o terceiro país mais importante na recepção de imigrantes que se utilizam da rota marítima, persiste na sua interminável crise política e econômica. Seguramente, esse trio de países pedirá mais suporte à União Europeia.

E os nacionalistas e xenófobos vão continuar a ter muito assunto.

Simultaneamente, o Reino Unido deverá iniciar formalmente o processo de sua saída do grupo europeu no final de março. Apesar de a premiê britânica, em discursos recentes, ter esclarecido um pouco da pretensão inglesa (“Deixar a União Europeia vai permitir a construção de uma Inglaterra verdadeiramente global”), segue muito claro que não há uma ideia precisa dos pontos básicos de um novo acordo, que será extremamente complexo.

A recente demissão do embaixador britânico na União Europeia não facilitou as coisas. Afinal, o que vai acontecer ao mercado financeiro de Londres e em que condições a indústria britânica poderá exportar para o continente? E a Escócia aceitará o “hard Brexit”?

Existe, portanto, um desconforto muito grande decorrente da percepção de que o governo inglês não tinha planos minimamente detalhados antes do plebiscito de junho do ano passado.

A China, por sua vez, tem problemas que não serão enfrentados até o novo Congresso do Partido Comunista em 2018. Isso não seria uma grande questão se não tivesse ocorrido o fenômeno eleitoral americano. Portanto, estamos todos à espera de qual será a política comercial dos Estados Unidos em relação à Ásia.

Tudo indica que o Acordo de Associação Transpacífico será denunciado. Como consequência, parece-me claro que o espaço estratégico da China na Ásia vai aumentar. Não é por acaso que está prevista uma reunião de consulta entre Japão, Coreia e China.

O que não se sabe é se haverá algum tipo de guerra comercial entre Estados Unidos e China, que afetaria o comércio do mundo todo.

O reposicionamento das diversas regiões poderá ser ainda maior. A União Europeia, acossada pela retórica agressiva de Trump, pela aproximação entre os Estados Unidos e a Rússia e pela saída do Reino Unido do projeto europeu, certamente terá interesse em se aproximar da China.

Assim, podemos estar perto de um realinhamento maior do que imaginávamos.

A última região relevante a considerar é o Oriente Médio com seu petróleo. É bastante provável que o Estado Islâmico sucumba à pressão militar e reduza significativamente a área que controla. Nesse caso, é quase certo que veremos um aumento do terrorismo ao redor do mundo.

Além disso, estamos assistindo a uma tragédia que é a destruição sistemática da Síria e do Iraque. Isso enfraquece o Líbano e a Jordânia e acentua o conflito dentro do mundo árabe, o que leva a uma pergunta relevante: o que ocorrerá com Irã, Turquia e Arábia Saudita? Conseguirá a Rússia “declarar vitória” e reduzir seu envolvimento na região?

Em meio a essa confusão, acredito que o acordo de sustentação de preços do petróleo entre países exportadores, como sempre acontece, acabará fracassando. É mais provável que vejamos preços abaixo de US$ 50 o barril nos próximos meses.

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