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Incertezas ameaçam abrir crise cambial no Brasil, alerta agência da ONU

Expansão do Brasil será metade da média mundial e PIB foi o que menos cresceu desde 2011 entre maiores economias

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2018 | 14h00

GENEBRA - Diante de um cenário de incertezas domésticas e internacional, o Brasil pode ser afetado pela falta de confiança na moeda brasileira. O alerta é da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento, Unctad. Em seu informe anual publicado nesta quarta-feira, 26, a entidade alerta que a depreciação do real pode levar a falências e uma crise cambial. A organização também constata que, hoje, o Brasil não tem uma estratégia industrial e, assim como o restante da região, vem perdendo espaço no cenário internacional.

Para 2018, a projeção da entidade da ONU é de que o Brasil terá um crescimento de apenas 1,4%, o mais baixo entre todos os BRICs e metade da taxa média do mundo, de 3,1%. Nesse mesmo período, a China crescerá 6,7%, contra 7% na Índia e 1,7% na Rússia. Entre os emergentes, a média será de uma expansão de 4,6%.

O levantamento também revela que, entre as maiores economias do mundo, o Brasil foi quem mostrou o pior desempenho entre 2011 e 2017, com uma expansão de apenas 0,5% por ano. Na China, a expansão foi em média de 7,6%, contra uma média mundial de 2,1% por ano, quatro vezes a taxa brasileira.

O crescimento médio brasileiro ficou abaixo inclusive das taxas europeias, mesmo diante da pior crise econômica no continente e uma ameaça de colapso da zona do euro.

De acordo com a Unctad, a recuperação dos preços de commodities permitiu que as economias latino-americanas registrassem uma leve alta em 2015, depois de dois anos de desaceleração. A recuperação do continente deve continuar em 2018, com uma expansão de 1,7%, depois de uma taxa de 1,1% em 2017.

No caso do Brasil, a projeção é também de expansão, depois de um crescimento de apenas 1% em 2017 e uma contração de 7% nos dois anos anteriores.

Mas essa recuperação já deu “sinais de desaceleração”, em parte precipitada pela greve dos caminhoneiros no segundo trimestre. Na avaliação da Unctad, isso criou “incertezas sobre o ritmo da recuperação para o restante do ano”.

Mas é a volatilidade da moeda que deixa os técnicos em estado de alerta. “Até recentemente, o Brasil abriu atenção por conta da fraqueza de sua moeda”, escreveu. “O real depreciou significativamente nos primeiros seis meses de 2018. O ritmo da depreciação só foi moderado pela emissão de swaps pelo Baco Central”, explicou.

A queda da volatilidade levou o BC a reduzir suas emissões de US$ 100 bilhões para menos de US$ 25 bilhões. O governo ainda trouxe a Selic de 14,25% em 2016 para 6,5% em março de 2018.

Segundo a Unctad, porém, o real não segurou e “até mesmo passou a ser alvo de um ataque especulativo”. “A queda da moeda só parou quando o presidente do BC declarou que iria intensificar o uso de swaps”, lembrou a entidade.

“Uma profunda depreciação do real pode gerar uma crise da moeda e desestabilizar os mercados financeiros com efeitos externos negativos na economia real”, alertou a Unctad. Quem mais sofreria seriam as empresas com dívidas denominadas em moedas estrangeiras, com falências e queda nos preços de apões que iriam frear investimentos.

“Se o BC decide aumentar as taxas de juros de forma repentina para evitar a saída de investidores estrangeiros e fuga de capital, o clima de investimentos pode piorar ainda mais”, indicou. Na avaliação da entidade, a dívida externa em patamares não tão elevados e reservas externas significativa de US$ 380 bilhões “dão ao Brasil alguma munição para enfrentar uma possível turbulência externa na segunda metade do ano”.

Ainda assim, a entidade alerta que, diante das incertezas, o Brasil “seguiria o destino da falta de confiança no real e uma pressão cada vez maior para economia”. “A depreciação é resultado de temores que emergentes enfrentam em diferentes setores da economia”, avalia.

Sem estratégia - Para a Unctad, os números e a vulnerabilidade da economia brasileira mostram que o País não tem uma estratégia de desenvolvimento industrial, o mesmo problema que enfrenta o restante da região. Sem isso, avalia a entidade, governos apenas conseguem fazer promessas de curto prazo e continuam perdendo espaço no mercado global e no desenvolvimento de novas tecnologias.

Outra constatação da Unctad é o baixo investimento existente no País em infra-estrutura. Na avaliação da entidade, o mundo precisaria de um aporte de US$ 4,6 trilhões a US$ 7,9 trilhões em novas estruturas a cada ano. Nos países emergentes, a conta chega a US$ 2,5 trilhões por ano até 2030. Hoje, esses investimentos não passam de US$ 870 bilhões.

Na América Latina, esses investimentos teriam de chegar a 6,2% do PIB para que a população e a economia fossem atendidas. Em 2015, ela era de apenas 3,2%. Naquele ano, porém, o Brasil destinou menos de 2% de seu PIB para infra-estrutura, uma das taxas mais baixas entre os países em desenvolvimento. Os dados se contrastam com os 6,8% do PIB que a China destina para essas obras.

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