Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Incertezas levam a recorde de investidores no Tesouro Direto

Com cenário externo e interno penalizando a renda variável, número de cadastros no programa foi o maior desde 2002

Jéssica Alves, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2018 | 05h00

Diante de um cenário político imprevisível e um mercado volátil, os investidores partiram em peso para o Tesouro Direto. Em julho, foram 107 mil novos cadastros, a maior entrada em um mês desde o início do programa, em 2002 – e 27 mil acima do mês anterior. As pessoas também estão aplicando mais: foram 16 mil novos cadastros ativos ante 10 mil em junho. No total, já são mais de 2,3 milhões de cadastros no programa de compra e venda de títulos públicos, um aumento de 55,7% nos últimos 12 meses.

“Esse pode ser um novo patamar”, acredita Paulo Marques, gerente de relacionamento institucional do Tesouro. Segundo ele, as incertezas tanto no exterior quanto no mercado interno tendem a levar as pessoas para aplicações menos arriscadas – e, naturalmente, elas caem na renda fixa, a despeito dos juros em um patamar historicamente baixo.

A guinada no Tesouro acontece em meio a um cenário que penaliza a maioria dos investimentos considerados mais arriscados, como ações e fundos multimercado, destaca o professor de Finanças do Coppead/UFRJ Carlos Heitor Campani. Ele lembra que junho, mês que antecedeu o recorde do Tesouro, a Bolsa acumulou perda de 5%, enquanto o dólar subiu 4%. “O medo leva as pessoas para o extremo oposto.”

A grande demanda pelo Tesouro Selic – 47% das vendas – reforça a tese de Campani. Esse título é considerado o mais seguro, pois acompanha a taxa básica de juros. Ele permite resgate a qualquer momento sem risco de perdas, uma vez que, independentemente do cenário, o investidor ganha o juro básico.

Olhando para os outros títulos, Marcos Piellusch, professor do Laboratório de Finanças da FIA, salienta que há bons retornos que chamam o investidor para essa aplicação. Para se ter uma ideia, o Tesouro IPCA+ 2024, está pagando uma taxa de 5,88% mais a variação da inflação. Outro exemplo é o título prefixado com vencimento em 2021, com taxa a 9,85%. Na comparação com produtos com taxa de administração maior do que 0,5% ao ano (custo médio da taxa de custódia do Tesouro mais o Imposto de Renda), tratam-se de bons rendimentos para aplicações de baixíssimo risco, diz.

Esses títulos, contudo, sofrem com a marcação a mercado – atualização do preço do ativo. Ou seja: se o investidor quiser se desfazer do títulos antes do prazo, está sujeito a uma nova taxa, que pode ser maior ou menor que a inicial. Se levar até o vencimento, não terá surpresas e receberá a taxa contratada. 

Além do cenário atual, Myrian Lund, pesquisadora do Ibre-FGV e planejadora financeira, destaca que a educação financeira também é um dos motivos para o recorde. Ela acredita que esse perfil de investidor – que faz aportes baixos e olha para o curto prazo – não está tão atento à conjuntura, mas sim a alternativas à poupança, e o Tesouro é a porta de entrada. Hoje, a caderneta está em desvantagem, pois paga 70% da Selic. O Tesouro Selic 2023 daria, por exemplo, um retorno líquido de 6,38% ao ano; já a poupança, de 5,5%.

Como escolher os tipos de títulos do Tesouro?

Tesouro Selic

Título cuja rentabilidade segue a variação da Selic. É considerado o título mais conservador pois, independentemente do cenário, o investidor ganhará o juro básico. É indicado para aqueles que buscam baixa volatilidade, evitando, assim, perdas no caso de uma venda antecipada. 

Tesouro Prefixado

Neste papel, a taxa de juros é fixa, ou seja, já na compra o investidor sabe quanto receberá de rentabilidade. Ele é indicado para o investidor que acredita que a taxa prefixada será maior que a taxa básica de juros (Selic). 

Tesouro IPCA

Paga um juro fixo conhecido já no momento da compra (parte prefixada) mais a variação da inflação. Por proteger o poder de compra do investidor, é indicado para quem quer fazer poupança de médio e longo prazos, inclusive para aposentadoria.

 

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