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Incertezas no câmbio

Até há semanas, era tida como inevitável a forte alta do dólar em reais nos próximos meses. Agora, algumas razões para essa disparada parecem ter perdido força e deixam um rastro de novas incertezas.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h04

A primeira convicção um tanto abalada é a de que os mercados começariam a operar com menos dólares porque o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) colocaria em marcha o processo de recolhimento da montanha de moeda emitida nos últimos quatro anos.

No entanto, as autoridades do Fed avisaram que o início desse enxugamento pode ficar mais para o fim de 2015, e não para o primeiro trimestre, como estava sinalizado. A novidade está sendo determinada pela prostração da atividade econômica global, tão enfatizada pelos últimos relatórios do Fundo Monetário Internacional.

Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu é pressionado para começar a injetar moeda. Isso significa que, em vez do quadro esperado de escassez, poderemos ter a continuidade da forte liquidez. Ou seja, um elemento que poderia compor um quadro de tempestade perfeita - temida há meses - não deve acontecer.

Podem também reduzir-se as pressões de natureza política que levariam à desvalorização do real (alta do dólar no câmbio interno). Os analistas contavam com que o governo trataria de soltar o câmbio hoje reprimido, qualquer que fosse o resultado das urnas. Essa repressão, para segurar a inflação, é realizada pelo Banco Central, que despejou, desde agosto de 2013, US$ 100,2 bilhões em leilões de swap cambial, operações equivalentes à venda de dólares no mercado futuro. A grande procura de dólares atendida pelos leilões tem por causa principal o baixo nível de confiança interna na economia, situação que pode reverter-se.

Há consenso de que a eventual vitória do candidato de oposição, Aécio Neves, restauraria imediatamente a confiança, o que ajudaria a atrair mais dólares para o País e, portanto, a provocar uma baixa no câmbio, especialmente se o Banco Central viesse a aumentar os juros básicos (Selic) para contra-atacar a inflação. Juros altos tendem a aumentar a entrada de dólares, porque atraem interessados em tomar recursos lá fora a juros deprimidos, para aplicar no Brasil a juros mais altos. Ou seja, a descompressão do câmbio poderia não produzir a alta esperada.

Não se pode desprezar a possibilidade de recuperação da confiança também no caso de vitória da candidata do governo, Dilma Rousseff, principalmente se ela se empenhasse em colocar em marcha ajustes imediatos na economia. Sobram imperativos nessa direção. Entre eles, está a necessidade de desarmar as ameaças (que são sérias) de perda do grau de investimento da dívida brasileira.

Para evitar uma indesejada valorização do real (baixa do dólar) que se seguisse a maior afluxo de moeda estrangeira, o Banco Central tem ainda a munição dos swaps cambiais que poderiam ser revertidos e, assim, contrabalançar o aumento da oferta com o aumento da procura por moeda estrangeira.

Enfim, não há certezas. As projeções que o mercado financeiro interno vinha dando como certas podem não se confirmar nas proporções imaginadas.

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