Alex Silva/Estadão
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CEO do Nubank: Incluir os mais pobres no sistema financeiro vai além de oferecer uma conta

David Vélez elogiou a inclusão de milhões de brasileiros ao sistema financeiro feita pela Caixa por meio do auxílio emergencial, mas criticou os grandes bancos, que na sua visão, repelem quem está de fora

Entrevista com

David Vélez, CEO e um dos fundadores do Nubank

André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 09h00

Um das fintechs brasileiras que mais têm demonstrado apetite para chegar aos desbancarizados, o Nubank quer atrair esse público sem se limitar a oferecer uma conta digital. É o que garante o CEO e um dos fundadores da instituição, o colombiano David Vélez.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirmou que vê de forma positiva a inclusão de milhões de brasileiros ao sistema financeiro por meio do auxílio emergencial pago pela Caixa Econômica Federal, mas criticou o modelo de negócios dos grandes bancos, que na sua visão repelem as pessoas que estão fora. Para Vélez, só será possível atingir os desbancarizados com pesados investimentos em tecnologia e uma compreensão clara das necessidades dos clientes. Abaixo, trechos da entrevista:

Depois de um primeiro momento no qual as fintechs cresceram atraindo pessoas insatisfeitas com os bancos, agora o desafio é chegar aos desbancarizados?

Os cinco grandes bancos tradicionais ainda concentram aproximadamente 85% do mercado. Cada dia fica mais claro que as soluções oferecidas por eles são mais caras e menos focadas nos clientes. Então, ainda existe uma grande oportunidade de crescimento no mundo bancarizado. Mas, de fato, uma das principais oportunidades em que estamos focados é com os desbancarizados. Criamos o Nubank com a missão de democratizar o acesso a serviços financeiros e já temos contribuído para isso. Um quinto dos nossos clientes nunca tinha tido acesso a um cartão de crédito antes de ter o roxinho (cartão do banco). Entre nossos clientes com mais de 55 anos, 15% tiveram o roxinho como o primeiro cartão de crédito. Eram pessoas que passaram praticamente a vida toda sem acesso a uma ferramenta básica de crédito e que agora podem usar o seu cartão Nubank de uma maneira descomplicada e acessível.

Quais são os principais desafios para atingir os desbancarizados, considerando que eles ainda são milhões e os bancos tradicionais ainda não chegaram até eles?

A última análise do Banco Mundial sobre o tema revela que o principal obstáculo à bancarização é a maneira como os bancos tradicionais se relacionam com os clientes. Segundo o relatório, os altos custos, a falta de acesso e a elevada burocracia repelem o grupo de brasileiros que ainda estão desbancarizados. Eu mesmo levei seis meses para conseguir abrir a minha primeira conta bancária quando me mudei para o Brasil. Se para mim que estava na maior cidade do País foi trabalhoso, imagine qual é a situação dos brasileiros que vivem fora dos grandes centros urbanos ou aqueles que moram em locais que não têm uma agência bancária. Estima-se que 17 milhões de brasileiros vivem em municípios que não têm uma agência bancária. Isso significa que, antes da facilidade dos bancos digitais, para resolver questões básicas - como abrir uma conta - essas pessoas precisavam andar quilômetros e quilômetros de distância. Some-se a isso os altos custos para manter uma conta bancária ou ter um cartão no Brasil. Para serem capazes de realmente contribuir para a bancarização, as empresas precisam ser extremamente eficientes e isso apenas acontece por meio de canais digitais e tecnologia proprietária. Não são todos os players que conseguem oferecer cartões de crédito de R$ 50 de uma maneira sustentável. Isso requer um nível elevado de investimento em tecnologia. Além disso, as empresas precisam entender muito bem as necessidades desses clientes.

Como superar a questão do custo de transação? Se cada transação financeira tem um custo para as instituições financeiras e os desbancarizados costumam ser pessoas de baixa renda, que transacionam valores pequenos, é um negócio que faz sentido para as fintechs?

O Nubank tem um modelo disruptivo de negócios que se contrapõe à política de preços do mercado com uma estrutura de custos muito mais eficiente justamente para que os serviços sejam acessíveis a todos. Uma boa parcela de nossos clientes têm vencimentos de até um salário mínimo e temos orgulho de saber que estamos contribuindo com a inclusão financeira. Com a implementação do Pix, a questão do custo da transação se torna ainda menos importante, já que os custos das transferências serão zerados para pessoa física. Estima-se que os desbancarizados movimentem cerca de R$ 817 bilhões por ano sem que um centavo passe pelo sistema financeiro. É um mercado praticamente inexplorado pelos bancos tradicionais porque eles seguem um modelo de negócios que tende a repelir esse grupo.

A Caixa Econômica Federal trouxe para o sistema milhões de pessoas por meio do auxílio emergencial. Isso é visto como um problema para o Nubank, pois reduz o potencial de mercado, ou uma oportunidade de atrair clientes que já foram iniciados?

A inclusão de pessoas no sistema financeiro tem efeitos positivos para a economia como um todo e apoiamos medidas que contribuam para isso. Há dados que mostram que mais de 20 milhões de pessoas que receberam o auxílio emergencial não tinham uma conta bancária antes. Eram pessoas que estavam excluídas do sistema e que agora estão acessando serviços financeiros pela primeira vez e já através de meios digitais. Mas é importante dar liberdade para os clientes escolherem em qual instituição eles querem receber o seu dinheiro. Acreditamos que a inclusão financeira vai além de oferecer uma conta. A experiência do cliente conta, e muito.

O Nubank comprou a Easynvest também com a intenção de levar o mundo dos investimentos aos desbancarizados. Que perfil de desbancarizado poderia ter dinheiro suficiente para economizar e investir?

Como já mencionei, a inclusão financeira vai além de oferecer apenas uma conta e um cartão para as pessoas. Acreditamos que para que elas estejam realmente incluídas é preciso empoderá-las com produtos diversificados e, quando se trata de investimentos, é necessário oferecer opções práticas e rentáveis, que sejam mais atrativas do que deixar o dinheiro embaixo do colchão. As plataformas de investimento que existem hoje resolveram o problema das pessoas de alta renda, apenas 1% ou 5% das população. Existem mais de 100 milhões de brasileiros que ainda investem quase R$ 1 trilhão na poupança. Ninguém está olhando para esse cliente e para os desbancarizados nesse setor. Será necessária uma eficiência operacional enorme e é isso que vamos trazer para o mercado de investimentos. Vamos levar o modelo Nubank de simplicidade e eficiência também para esse mercado. Ter uma relação saudável com o próprio dinheiro e ter a possibilidade de vê-lo render deve ser acessível para todos os brasileiros, independentemente do total investido.

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