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Inconsistências

O Banco Central não foi capaz de fundamentar seu discurso por meio da ata do Copom divulgada nesta quinta-feira

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2015 | 21h00

A Ata do Copom divulgada nesta quinta-feira responde menos do que a crise e o galope dos fatos vinham sugerindo.

Apenas para tirar alguma poeira da memória, as últimas decisões sobre juros básicos (Selic) em 29 de julho foram tomadas sob novas condições da economia. O ministro Joaquim Levy havia jogado a toalha na briga contra o rombo das contas públicas. Em vez de um superávit primário de 1,1% do PIB (R$ 66,3 bilhões) ficou de entregar apenas 0,15% do PIB (R$ 8,7 bilhões). Mesmo assim, não garantiu o cumprimento dessa meta já revista para baixo; condicionou-o à obtenção de recursos de brasileiros depositados no exterior (repatriação), a acordos com empresas em litígio com a Receita e a prêmios obtidos nos leilões de concessão.

Ora, as decisões anteriores de política monetária (política de juros) basearam-se no pressuposto de que a meta do superávit primário de 1,1% do PIB, seria cumprida. Como não será e o governo vai gastar mais, faltou saber como se arrumaria a política de juros com mais esse dinheiro na praça.

Duas outras variáveis conspiraram contra a obtenção da meta de inflação, de 4,5% no período de 12 meses terminado em 31 de dezembro de 2016. A primeira é a nova escalada da cotação do dólar no câmbio interno (desvalorização do real); e a outra, o aprofundamento da crise política que balança o governo e empurra a economia contra o barranco. Foi a esses fatores que, dias antes da reunião do Copom, o diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Luiz Awazu Pereira da Silva, se referira quando reconheceu a existência de “novos riscos” para o controle da inflação.

 

A decisão do BC foi aumentar os juros em mais meio ponto porcentual, para 14,25% ao ano (veja o gráfico); e passar o recado de que pararia por aí por um longo período, sem indicar qual. Enfim, a parada no nível dos juros pode ser ardentemente desejável, mas ficou inconsistente diante da existência de novos riscos de inflação a combater.

A ata não tirou as dúvidas. É mais um feixe de apostas e de declaração de (boas) intenções e menos uma peça coerente. Sobre a questão fiscal, não apenas repete que a tendência é que deixe de produzir inflação (“o balanço do setor público tende a se deslocar para a zona de neutralidade”), mas acrescenta que pode reduzir a inflação (“não descarta a hipótese de migração para a zona de contenção”). Essa conclusão ou é um ato de fé destituído de bases lógicas ou as bases lógicas não ficaram demonstradas.

Independentemente disso, o BC reconhece que a inflação ainda pode escapar dos trilhos. Mas limita-se a afirmar na ata que “permanecerá vigilante” e tal.

Tudo isso não quer dizer que os juros tão altos no Brasil não tenham ido longe demais. Quer dizer apenas que a autoridade monetária não foi capaz de fundamentar seu discurso.

Do ponto de vista prático, o principal recado desta ata é o que já havia sido colhido pelo mercado. A política é manter a Selic nos 14,25% ao ano por um bom tempo - a menos que sobrevenham fatos novos que exijam mudanças. Nesta sexta-feira será conhecida a inflação de julho, que pedirá nova análise sobre o tema.

CONFIRA:

Aí está a evolução das cotações do dólar desde o início deste ano.

Falar e agir

Nesta quinta-feira, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Mendes, avisou que as cotações do dólar subiram demais e que perderá dinheiro quem estiver comprando a esses preços. Essa retórica trombava com a política adotada até ontem. O BC estava operando seu estoque de swaps de modo que, na prática, aumentava suas compras de dólares em US$ 4 bilhões por mês. No fim da tarde, no entanto, a autoridade monetária anunciou que não vai comprar dólares neste mês.

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