Incorporadoras devem lançar menos imóveis em 2015 e até reduzir preços

Pesquisa da USP com empresários do setor mostra que 77% deles esperam lançar um número menor de unidades no ano que vem na comparação com 2014; preço dos imóveis tende a acompanhar a inflação e até cair em algumas regiões

CIRCE BONATELLI , O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2014 | 02h03

O mercado imobiliário nacional tende a sofrer nova retração em 2015, depois de enfrentar, ao longo deste ano, uma queda na velocidade das vendas e a postergação de lançamentos. O clima de incerteza sobre os rumos da economia e os estoques elevados exigirão das incorporadoras muita cautela na oferta de novos produtos, além de esforços adicionais para venda dos imóveis.

Segundo consulta realizada este mês pelo Núcleo de Real Estate da Universidade de São Paulo (USP), 77% dos empresários do setor acreditam que o número total de unidades lançadas em 2015 será menor do que em 2014, enquanto apenas 23% esperam crescimento. A pesquisa também mostra que 56% dos empresários estimam queda na velocidade de vendas e 33% contam com estabilidade. Só 11% acreditam em alta.

O esfriamento do mercado imobiliário reflete a expectativa de ajustes na política econômica, que podem resultar em alta das taxas de juros e em um possível corte de empregos. O cenário abala a confiança dos consumidores e tira a previsibilidade de empresários.

"A probabilidade é de que o comportamento da economia seja frágil em 2015. Se isso acontecer, o mercado imobiliário terá um ano de pouca expressão", avalia João da Rocha Lima, coordenador do núcleo. "Esse cenário só se reverteria se a economia melhorasse e se os compradores de imóveis sentissem confiança de que o emprego e a renda não estão sob risco."

Segundo o diretor superintendente da Rossi Residencial, Leonardo Diniz, a incorporadora tem capacidade de lançar mais em 2015 do que em 2014, mas a oferta de novos projetos dependerá da velocidade de vendas nos próximos meses. "Se não fosse o cenário econômico incerto, eu diria que temos planos de lançar mais. Só que isso depende do mercado", diz o executivo.

Em um evento no Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), o diretor presidente da Gafisa, Sandro Gamba, disse que, hoje em dia, apenas 7% das visitas aos estandes da companhia são convertidas em vendas. Em 2013, esse patamar estava em 15%. "O prazo para fechamento dos negócios está maior, então temos de trabalhar mais as vendas", afirma. De acordo com ele, a Gafisa tem trabalhado de 45 a 60 dias no pré-lançamento de seus projetos, com estandes montados para recolher nomes de interessados antes de iniciar oficialmente as vendas. O objetivo é evitar que os imóveis fiquem encalhados.

Estoques. Outro fator negativo para as empresas foi o aumento dos estoques ao longo de 2014, situação ligada ao crescimento das rescisões de vendas. No momento da entrega das obras, muitos compradores não tiveram capacidade de assumir financiamento com os bancos, enquanto investidores decidiram devolver o imóvel, que já não se valoriza tanto.

"O cenário do setor é de um estoque muito grande de produtos acabados. As empresas terão de fazer a limpeza desses produtos e isso impacta a nossa capacidade de lançamento", diz o diretor presidente da Rodobens Negócios Imobiliários, Marcelo Borges. A companhia tem adiado a oferta de novos empreendimentos por causa da concorrência dos imóveis em estoque, que têm sido comercializados com descontos agressivos. Isso acontece porque as unidades prontas geram custos de condomínio e manutenção para as incorporadoras. "Isso vai prejudicar não só nossos lançamentos, mas o de todas as empresas", diz Borges.

Diante do esfriamento do setor, algumas companhias cogitam oferecer descontos aos consumidores, abrindo mão de margem para ganhar liquidez. A situação foi admitida por empresas como a PDG, Rossi, Tecnisa e Eztec. "Se o mercado melhorar, vamos aumentar um pouco o preço e ganhar margem. Se piorar, vamos diminuir um pouquinho", disse o diretor vice-presidente da incorporadora Eztec, Flávio Ernesto Zarzur, em reunião com investidores.

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