Trisul
Área comum de projeto da Trisul pode funcionar como espaço de coworking e como salão de festas, dependendo da organização. Trisul

Incorporadoras repaginam imóveis para atender a novos hábitos do comprador no pós-pandemia

Empresas ampliam área dos apartamentos para famílias que se acostumaram a passar mais tempo em casa durante a pandemia e apostam em espaços compartilhados para trabalhar

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 14h00

A safra de empreendimentos imobiliários que chegam ao mercado neste semestre já traz alterações nos projetos para atender aos hábitos dos consumidores que vieram à tona na quarentena. Muita gente foi obrigada a passar mais tempo em casa, que se tornou o centro das atividades de trabalho e lazer. Isso levou a um aumento nas buscas por residências maiores, com espaços para coworking e em regiões mais sossegadas.

A incorporadora Mitre está aumentando em 10 m² parte dos seus empreendimentos de dois e três quartos destinados a famílias com filhos. "O apartamento de 80 m² foi para 90 m² e o de 90 m² foi para 100 m². Esse aumento serve para montar uma ilha de trabalho ou ampliar o espaço de cozinha. Ajuda quem trabalha em casa ou quem está cozinhando mais, por exemplo", disse o diretor de relações com investidores, Rodrigo Cagali.

Os novos projetos da Mitre também terão um redesenho para ampliar as áreas dos condomínios onde são guardadas as entregas de compras online. A incorporadora estuda, inclusive, a adoção de armários térmicos para acondicionar melhor itens alimentícios.

Trisul, na retomada dos lançamentos, priorizou os empreendimentos com três dormitórios, acima de 100 m². "O produto de área maior tem sido mais demandado. As pessoas estão pedindo mais conforto porque ficam mais tempo em casa", observou Jorge Cury, presidente da empresa.

Uma das novidades da Trisul foi a projeção de salões de festas que podem ser revertidos em espaços de coworking. "Durante a semana, o condomínio pode adaptar o local para funcionar com estações de trabalho. E depois voltar a usar para festas no fim de semana. Já vamos entregar o projeto pronto para o síndico", contou Cury.

Novas exigências

A pandemia alterou sensivelmente as preferências dos consumidores por imóveis, conforme tem sido percebido por agentes do setor. A procura por apartamentos com varanda gourmet ou churrasqueira, por exemplo, cresceu 195%. A busca por unidades acima de 120 m² subiu 100% e a acima de 200 m², 25%. Além disso, a procura por casas (no lugar de apartamentos) também aumentou 25%. Os dados fazem parte de um levantamento do site de classificados Kzas comparando os meses de abril a julho - quando a quarentena atingiu seu auge - na comparação com janeiro a março - antes da crise.

Além disso, a popularização do home office gerou uma segunda implicação no mercado: a localização dos prédios. O fundador e presidente da Kzas, Roberto Nascimento, diz que é evidente o interesse do consumidor por imóveis não só maiores, mas também "longe dos engarrafamentos, da poluição e das grandes aglomerações de pessoas", já que não há necessidade de se deslocar diariamente.

A opinião é compartilhada pelo presidente executivo da Tecnisa, Joseph Meyer Nigri. "Bairros mais calmos e mais arborizados nos arredores serão mais aceitos pelos clientes. Então, já temos direcionado esse olhar para os terrenos que nós prospectamos", contou. Como o metro quadrado tem valor menor nesses locais, esses imóveis poderão ter preço mais acessível ou planta maior, complementou.

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Após tombo na quarentena, incorporadoras começam a retomar lançamentos

Vendas conjuntas das 15 principais incorporadoras com ações na Bolsa caíram 21% no segundo trimestre, mas melhora vista entre junho e agosto já anima os empresários do setor

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 14h00

Depois do tombo sofrido nos últimos meses, quando a pandemia da covid-19 derrubou as vendas e os lançamentos de imóveis, as incorporadoras começam a se reerguer. A maioria das empresas listadas na Bolsa diz que os negócios estão melhorando e, por isso, já se movimentam para lançar empreendimentos postergados durante a quarentena.

As vendas conjuntas das 15 principais incorporadoras com ações em Bolsa (Cyrela, Direcional, Eztec, Even, Gafisa, Helbor, Mitre, MRV, Moura Dubeux, PDG Realty, RNI (antiga Rodobens), Rossi, Tecnisa, Tenda e Trisuem) totalizaram R$ 4,44 bilhões no segundo trimestre de 2020, uma retração de 21% em relação ao mesmo período de 2019, quando o mercado estava aquecido. Os lançamentos conjuntos ficaram em R$ 2,79 bilhões no período, um recuo de 54%.

O tamanho da queda nas vendas não foi tão feio quanto o imaginado por empresários e analistas no início da quarentena, quando todos tomaram um susto com o fechamento do comércio e as incertezas sobre os rumos da economia do País. A redução nas vendas foi amortecida pelo recorde de baixa nos juros do crédito imobiliário, que aumentou o poder de compra das famílias.

Além disso, foram implementados canais de atendimento digital por imobiliárias, bancos e cartórios, permitindo as assinaturas de contratos a distância, algo praticamente inédito até então.

Com muito mais vendas do que lançamentos no trimestre, o estoque de imóveis diminuiu. E os sinais de melhora a partir de maio animaram os empresários.

"Nossas vendas caíram de forma acentuada entre março e abril. Em maio começou a recuperação e em junho o desempenho foi forte", comentou o diretor financeiro da Cyrela, Miguel Mickelberg. O grupo fez lançamentos em junho, julho e agosto, com desempenho de vendas considerado saudável, o que gerou mais otimismo.

Retomada

A incorporadora Mitre, que abriu seu capital neste ano, também está acelerando as atividades. "Fechamos o segundo trimestre sem lançar nada, mas vendemos bem o estoque. Isso nos deu conforto para voltar a lançar", afirmou o diretor de relações com investidores, Rodrigo Cagali. A companhia lançará três projetos neste trimestre - nos bairros da Freguesia do Ó, Tucuruvi e Perdizes. O da Freguesia já saiu e teve 42% das unidades vendidas em um mês. "A quantidade de visitas nos estandes está elevada. Preenchemos todos os horários de atendimentos. Estamos animados", disse.

O presidente da Trisul, Jorge Cury, também relatou melhora: "Após a reabertura dos estandes, tivemos uma aderência grande dos clientes. A demanda está boa". A Trisul lançou três empreendimentos em junho e tem dois programados até o fim deste mês. Cury conta que, no meio da quarentena, já havia praticamente desistido de atingir sua meta de lançamentos prevista para 2020, na faixa de R$ 1 bilhão a R$ 1,3 bilhão. Com a recuperação dos negócios mais cedo que o imaginado, o executivo passou a achar possível alcançar ao menos o piso da meta neste ano.

Ao longo da temporada de apresentação dos balanços, várias empresas detalharam seus próximos lançamentos (algo pouco comum no setor) após o desempenho fraco no segundo trimestre. Os anúncios foram parte da tentativa de demonstrar confiança na recuperação do mercado imobiliário e acalmar investidores neste momento delicado da economia global.

A Gafisa comunicou a meta de três lançamentos até setembro nos bairros de Perdizes, Jardins e Moema. Se confirmada, será a retomada de lançamentos pela Gafisa, interrompidos há mais de um ano, por causa de problemas internos. A paulistana Tecnisa anunciou que lançará um projeto no Mooca. A pernambucana Moura Dubeux, que estreou na Bolsa este ano, também prometeu quatro novos projetos neste trimestre, dois em Recife e dois em Fortaleza.

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