Independência da Escócia esbarra na libra

Governo fará em setembro plesbicito para decidir se país continuará ou não parte do Reino Unido; maior problema é escolha da moeda

FERNANDO NAKAGAWA, CORRESPONDENTE / LONDRES, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h06

Em 18 de setembro, eleitores decidirão se a Escócia continuará parte do Reino Unido ou passará a ser um país independente. Na reta final da campanha, o principal tema do debate é a moeda.

O governo britânico já avisou que a Escócia independente não poderá usar a libra esterlina. O movimento pelo "sim" diz que a ameaça é um blefe. O fato é que 76% dos escoceses querem continuar com o dinheiro emitido por Londres nas carteiras. Sem uma opção, independentistas poderão sair derrotados das urnas.

Ao norte da Grã-Bretanha, a Escócia tem 5,3 milhões de habitantes espalhados em uma área pouco menor que o Estado de Santa Catarina e, politicamente, faz parte do Reino Unido. Assim, Edimburgo tem algumas responsabilidades como saúde, educação, Justiça e meio ambiente. Outros poderes, porém, são atribuições de Londres, como imigração, defesa e política externa, além da constituição.

A situação não agrada a todos e o atual grupo político líder da Escócia, o Partido Nacional Escocês (SPN, na sigla em inglês), tem usado a independência como principal bandeira nos últimos anos. O primeiro-ministro escocês, Alex Salmond, é o principal nome do movimento independentista e diz que ser parte do Reino Unido é algo que "não serve mais" para os escoceses.

Contencioso secular. A briga com os ingleses não é nova. No século 13, William Wallace foi o primeiro líder que lutou por uma Escócia independente. A história contra o poderoso rei Eduardo I da Inglaterra foi enredo para Mel Gibson em Coração Valente. Séculos depois, o discurso continua com o mesmo alvo: o movimento pelo "sim" diz que, após se livrar dos "grilhões" de Londres, a Escócia pode se transformar em um dos países mais ricos do mundo graças às grandes reservas de petróleo sob o mar.

Libra. A campanha pelo "sim" ia relativamente bem até que o debate migrou para a moeda há algumas semanas. O primeiro- ministro britânico, David Cameron, avisou que um país independente do Reino Unido não pode fazer parte de uma união monetária. Ou seja, não poderá usar a libra esterlina emitida pelo Banco da Inglaterra. Independentistas reagiram e disseram que a ameaça era um "blefe".

O movimento, porém, levantou a hipótese de aderir ao euro como alternativa. A opção foi rapidamente riscada dos planos porque a Escócia não cumpre requisitos básicos para aderir à moeda comum europeia.

Bruxelas exige, por exemplo, déficit fiscal menor que 3% do Produto Interno Bruto (PIB) para adesão à moeda única. Projeções de economistas mostram que a Escócia independente poderia ter déficit próximo de 5% do PIB entre 2016 e 2017, logo após eventual saída do Reino Unido.

Diante de um aparente limbo monetário, o movimento independentista começou a cogitar um "Plano C".

'Libralização'. No início do mês, Salmond defendeu o uso da libra mesmo sem autorização. "Não há literalmente nada que se possa fazer para impedir a Escócia independente de usar a libra, uma moeda internacionalmente comercializável." O plano cogitava "libralizar" a economia escocesa ao atrelar a moeda local à libra - um modelo idêntico ao usado por países economicamente mais fracos, como o Equador ou o Panamá que "dolarizaram" suas economias.

A opinião pública reagiu rapidamente. Apoiadores do "não", o movimento "Melhor juntos", passaram a exibir cartazes "Esse é o seu plano, Alex? Não, obrigado". Economistas classificaram a opção como "arriscada" porque Edimburgo ficaria completamente sem comando da política monetária e, ao mesmo tempo, deixaria o país sem um emprestador de última instância - papel exercido pelo banco central que tem poder de emitir a moeda.

No meio dessa polêmica, o "não" aumentou a vantagem em seis pontos porcentuais nas pesquisas. Em 7 de agosto, 55% dos entrevistados disseram que votariam para manter a Escócia parte do Reino Unido, 35% disseram apoiar a independência e 11% disseram não saber.

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