Índia pede que fim de discussão em Doha seja visto como pausa

Em resposta, diretor da OMC diz que ganhos obtidos em Genebra devem ser mantidos; 'Não vamos retroceder'

Cynthia Decloedt e Deise Vieira, da Agência Estado,

30 de julho de 2008 | 11h38

O ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath, pediu que o fim das conversações dos últimos nove dias em Genebra sobre as negociações da Rodada Doha, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), seja tratado como uma "pausa". "Pediria ao diretor-geral (da OMC, Pascal Lamy) que trate isto como uma pausa, não como uma ruptura, para manter na mesa o que já está lá", afirmou Nath. Veja também:Após Doha, Brasil se concentra em 'resultados', diz AmorimLula classifica fracasso na Rodada Doha como 'frustrante'Negociações da Rodada Doha fracassam com impasse agrícola Os problemas que levaram as negociações ao fracasso Vencedores e perdedores após colapso de DohaPrincipais datas que marcaram a rodadaVeja a reação no Brasil após o fracasso das negociações da OMC Lamy, por sua vez, disse que não deverá haver retrocesso dos avanços obtidos nas negociações. Ele observou que os ganhos obtidos devem ser mantidos na mesa. "Não vamos retroceder", afirmou à radio francesa Info. "Obtivemos enorme progresso, mas não o suficiente." Lamy disse ter ficado surpreso com a determinação dos países em seus esforços para buscar um acordo apesar do "desapontamento" com o fim dessa etapa das negociações. "Ouvi todos os países em desenvolvimento dizerem que, acima de tudo, 'mantenham os ganhos obtidos nesta semana'", afirmou o diretor da OMC. Os delegados dos países reuniram-se esta manhã para discutir o que será feito daqui em diante. Nath e a representante de Comércio dos EUA, Susan Schwab, teriam, segundo informações, agendado um almoço juntos. "Susan Schwab disse que me amava e eu disse que a amava também. Mas provavelmente ela não me amava o suficiente. Eu disse isto a ela", afirmou o ministro indiano. A França disse que a ruptura "não é o fim do mundo". Dois ministros franceses questionaram se a estrutura das negociações foi adequada para lidar com questões amplas de comércio, notadamente a agricultura, de uma única vez. As negociações em Genebra foram rompidas na terça, depois que a Índia e os EUA não conseguiram chegar a um consenso sobre o mecanismo de salvaguardas especiais, para proteger os produtores agrícolas de países pobres em situações de aumento expressivo das importações ou de disparada dos preços. O porta-voz do governo alemão, Ulrich Wilhelm, disse que seu país defenderá na União Européia a continuidade das negociações, com base nos resultados alcançados até agora. Embora tenha defendido a continuidade, Wilhelm ponderou que não vê conclusão das negociações globais de liberalização do comércio este ano ou antes que uma nova administração tome posse nos EUA, em 2009. Wilhelm acrescentou que os acordos bilaterais são uma alternativa pior do que o entendimento multilateral. O primeiro-ministro do Japão, Yasuo Fukuda, disse que o colapso das conversações em Genebra, para estabelecer as modalidades de retomada da negociação da Rodada Doha, era "extremamente lamentável". Representantes da África, que tinham esperança de que outras questões relevantes para os países pobres fossem negociadas, como o comércio do algodão e da banana, estavam inconsolados. "Mal podemos controlar nossa ira", disse o ministro de Comércio de Burkina Faso. O ministro do Comércio do Quênia, Uhuru Kenyatta, disse em nome do grupo africano, que o colapso "prejudica gravemente" os esforços contra a pobreza. China A China afirmou também nesta quarta que está pronta para firmar acordos econômicos bilaterais após o fracasso das negociações para impulsionar a Rodada Doha, e alertou que a falta de um acordo em Genebra irá prejudicar o sistema de comércio global. Mas analistas afirmam que um pacto de comércio multilateral seria a melhor opção para o país no longo prazo, já que acordos bilaterais e regionais podem se tornar muito limitados diante do desenvolvimento da competitividade e da economia da China. O ministro do Comércio da China, Chen Deming, considerou o colapso das negociações um "fracasso trágico". Mas, segundo ele, a China pretende aumentar seu trabalho com países em desenvolvimento e intensificar o comércio bilateral e a cooperação econômica com os principais membros da OMC. Ao mesmo tempo em que as discussões da OMC enfrentavam dificuldades nos últimos anos, a China vinha discutindo ou lançando acordos bilaterais de livre comércio. Seu Tratado de Livre Comércio (FTA, na sigla em inglês) mais recente foi firmado com a Nova Zelândia, e entra em vigor em 1º de outubro deste ano. A União Européia e os Estados Unidos são os dois maiores parceiros comerciais da China, mas o país ainda precisa firmar um FTA com cada um deles.

Tudo o que sabemos sobre:
OMCRodada Doha

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.