Evaristo Sá/AFP
Nome de Weintraub não foi bem aceito por integrantes e ex-integrantes do Banco Mundial. Evaristo Sá/AFP

Indicação de Weintraub atrapalha planos de Guedes e é segunda derrota na área internacional

Ministro queria o atual diretor-executivo do FMI no cargo, pois já precisou desistir de indicar um nome para o BID; carta foi enviada para o Banco Mundial contra a indicação

Lorenna Rodrigues e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2020 | 18h47
Atualizado 20 de junho de 2020 | 22h06

A indicação de Abraham Weintraub para o Banco Mundial atrapalhou os planos do ministro da Economia, Paulo Guedes, para o cargo e representa a segunda derrota dele no campo internacional nesta semana. O nome foi mal recebido por integrantes do banco e gerou reação no Brasil: uma carta contra a nomeação, com mais de 250 assinaturas de economistas, intelectuais, parlamentares e artistas foi encaminhada ao organismo internacional.  

Segundo o Estadão/Broadcast apurou, Guedes queria que  o atual diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), Antônio Bevilaqua, acumulasse também a cadeira no Banco Mundial. Isso vinha sendo discutido no início do ano, mas a questão acabou sendo colocada em espera por conta da pandemia do coronavírus. 

Na quarta-feira, o governo brasileiro teve que apoiar a indicação dos Estados Unidos de um nome para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Brasil queria indicar um nome do País para o cargo e vinha tentando o apoio dos EUA para isso, o que não se concretizou. 

Agora, a pressão foi doméstica e, apesar de a diretoria-executiva do Banco Mundial ser de indicação do ministro da Economia, Guedes teve que aceitar o nome do presidente Jair Bolsonaro. Segundo integrantes da pasta, porém, isso foi acolhido pelo ministro “com tranquilidade”.

Reação 

Quinze instituições e 257 pessoas assinam o documento contra a indicação de Weintraub, entre eles ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero e os economistas Octavio de Barros, José Roberto Afonso e Laura Carvalho. Também subscrevem o cantor Chico Buarque e a socióloga Maria Alice Setubal, além de parlamentares de oposição. 

A carta foi enviada para os embaixadores dos países no Brasil que são corepresentados e para a representação do Banco Mundial. O documento foi encaminhado para a representação do Banco Mundial em Brasília e para os embaixadores dos oito países que o Brasil representa no organismo. 

“Enviamos esta carta para desaconselhar fortemente a indicação de Weintraub para essa importante posição e para informa-lo do potencial de causar danos irreparáveis à posição do seu país junto ao Banco Mundial”, afirma o texto.   

Para Ricupero, a indicação de Weintraub é altamente prejudicial aos interesses brasileiros. “O Banco Mundial tem uma agenda comprometida com o meio ambiente, tribos indígenas, têm uma pauta progressista. Não vejo como um sujeito como esse [Weintraub] pode trabalhar nesse ambiente”, afirmou. “Um homem que se autodefine como militante não vai representar o país imparcialmente”.

O ex-vice presidente do Banco Mundial, Otaviano Canuto, que também ocupou o cargo de diretor-executivo para o qual Weintraub foi indicado, disse ao Estadão que esse é um posto que exige “técnica e diplomacia”. 

“Todas as pessoas que ocuparam esse cargo construíram uma reputação de respeito que permitiram ao Brasil influenciar o banco além dos 4% do capital que essa cadeira representa”, afirmou.

Sem citar Weintraub diretamente, Canuto disse que o contrário também pode ocorrer: se o ocupante do cargo não for bem sucedido, o Brasil pode perder influência e cair no ostracismo.

Desde a indicação, o Ministério da Economia vem ressaltando as experiências de Weintraub em bancos – ele foi economista-chefe do Banco Votorantim –, na academia e no setor público. A passagem de Weintraub pelo Votorantim gerou polêmica. Na quinta-feira, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse que o ex-ministro da Educação “quebrou o banco”, o que Weintraub logo negou nas redes sociais. 

Em 2009, quando o ex-ministro estava na instituição, o Banco do Brasil comprou 49% do banco da família Ermírio de Moraes, depois do Votorantim ser atingido fortemente pela crise financeira do ano anterior.

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Banco Mundial recebe indicação de Weintraub, mas diz que mandato termina em três meses

Em nota encaminhada ao Estadão, o Banco disse que recebeu uma comunicação oficial das autoridades brasileiras que indica o ex-ministro para Diretor Executivo, representando o Brasil e demais países do seu grupo

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2020 | 19h27

BRASÍLIA -  O Banco Mundial recebeu, nesta sexta-feira, 19, a indicação do governo brasileiro para que Abraham Weintraub, que acaba de deixar o Ministério da Educação, passe a integrar os quadros da instituição. Em nota encaminhada ao Estadão, o Banco disse que recebeu uma comunicação oficial das autoridades brasileiras que indica o Sr. Abraham Weintraub para Diretor Executivo, representando o Brasil e demais países do seu grupo (constituency) no Conselho de Diretores Executivos do Grupo Banco Mundial.

O tempo de seu mandato, no entanto, não passaria de três meses. “Se eleito pelo seu constituency, ele cumprirá o restante do atual mandato que termina em 31 de outubro de 2020", diz a instituição, ressaltando que, daqui a quatro meses, "será necessária uma nova nomeação e nova eleição."

O ministro da Educação anunciou na tarde de ontem sua saída do governo. Em vídeo publicado nas redes sociais ao lado do presidente Jair Bolsonaro, Weintraub não revelou o motivo de estar deixando o MEC, mas disse que irá assumir uma representação brasileira na diretoria do Banco Mundial.

O cargo prometido a Weintraub é o de Diretor Executivo.  Segundo a assessoria do Banco, Diretores Executivos são os representantes dos 189 países membros no Conselho de Diretores do Banco Mundial e são indicados ou eleitos pelos acionistas. 

Confira a nota

“O Banco Mundial recebeu uma comunicação oficial das autoridades brasileiras que indica o Sr. Abraham Weintraub para Diretor Executivo representando o Brasil e demais países do seu grupo (constituency) no Conselho de Diretores Executivos do Grupo Banco Mundial. Se eleito pelo seu constituency, ele cumprirá o restante do atual mandato que termina em 31 de outubro de 2020, quando será necessária uma nova nomeação e nova eleição. Diretores Executivos não são funcionários do Banco Mundial, mas representantes dos nossos 189 acionistas.”

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Banco Mundial: descubra como funciona a instituição financeira internacional

Banco tem sede nos Estados Unidos e possui mais de 120 escritórios em todo mundo; ele apoia inciativas voltadas a redução da pobreza e proteção do meio-ambiente

Redação, O Estado de S. Paulo

19 de junho de 2020 | 21h25

O Banco Mundial é uma instituição financeira internacional que tem, como principal missão, apoiar países em desenvolvimento como o Brasil, por meio de empréstimos e assessoria técnica. Fundado em 1944, o Banco Mundial está sediado em Washington, DC, nos Estados Unidos e tem mais de 10 mil funcionários em mais de 120 escritórios em todo o mundo.

Com 189 países membros, funcionários de mais de 170 países e escritórios em mais de 130 locais, o Banco Mundial apoia iniciativas que trabalham para soluções ambientalmente sustentáveis, que reduzam a pobreza e gerem prosperidade compartilhada entre esses países em desenvolvimento.

O órgão tem status de observador no Grupo de Desenvolvimento das Nações Unidas e em outros fóruns internacionais, como o G-20 financeiro, estabeleceu duas metas globais até 2030: acabar com a pobreza extrema, diminuindo a porcentagem de pessoas que vivem com menos de US $ 1,90 por dia para não mais de 3%; promover a prosperidade entre países, promovendo o crescimento da renda dos 40% inferiores para todos os países.

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