Indicadores dão sinais de perda de ritmo da indústria

Produção industrial desacelerou no segundo trimestre em relação ao anterior, mas ainda mantém nível elevado

Márcia De Chiara, Ricardo Leopoldo/SÃO PAULO, Eduardo Rodrigues/ BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

Três indicadores divulgados ontem mostram que a indústria desacelerou no segundo trimestre em relação ao primeiro e iniciou julho exibindo ritmo de produção menor do que o registrado em junho, mas num nível ainda elevado.

Em julho Índice de Confiança da Indústria (ICI) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) recuou pelo segundo mês consecutivo, puxado para baixo especialmente pelo ajuste ocorrido nos bens duráveis, carros e eletrodomésticos da linha branca, que já não contam com benefícios fiscais para impulsionar as vendas. A queda do ICI foi de 1,5% em julho na comparação com junho. Apesar do retração, o indicador de 113,6 pontos é muito próximo do período pré-crise, julho de 2008.

O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) medido pela FGV, livre das influências sazonais, caiu de 85,5% em junho para 85,1% neste mês, indicador que está hoje acima da média dos últimos sete anos (83,1%).

Sondagem Industrial divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o indicador de evolução da produção industrial em junho ficou em 51,8 pontos, revelando que atividade manteve-se praticamente estável em relação ao mês anterior. Em maio, o índice havia ficado em 54,9 pontos. Acima de 50 pontos o indicador indica crescimento da atividade.

De acordo com a CNI, o uso da capacidade instalada das fábricas ficou abaixo do usual para o mês de junho. O indicador ficou em 48,4 pontos no mês passado, enquanto em maio havia registrado 50,3 pontos.

O Indicador do Nível de Atividade (INA) da indústria paulista apresentou queda de 0,6% em junho ante maio com ajuste sazonal, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Também o Nuci da indústria paulista caiu em junho para 81,8%, após atingir 82,5% em maio, com ajuste sazonal.

"Os dados mostram que não há descompasso entre oferta e demanda. A indústria está operando sem pressão na utilização da capacidade instalada e os estoques estão próximos do planejado", afirma o analista da CNI, Marcelo Azevedo.

Aloisio Campelo, superintendente de sondagens conjunturais da FGV, diz que o ajuste na indústria é suave e destaca a heterogeneidade entre os diferentes setores. O nível de estoques, por exemplo, espelha essa realidade.

De junho para julho, aumentou tanto a fatia de empresas com estoques insuficientes, de 6,2% para 7%, como o porcentual de companhias com estoques excessivos, de 3,2% para 5,6%. O ponto comum na sondagem da FGV é que diminuiu de 90,6% em junho para 87,4% em julho a fatia de indústrias com estoques tidos como normais. Até mesmo as indústrias automobilística e de linha branca, que tinham estoques excessivos no mês passado, encerraram este mês sem estoques excessivos.

Apesar do ajuste para adequar a produção ao ritmo menos intenso da demanda, o cenário é positivo. O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, Paulo Francini, afirma que o INA deve voltar a crescer em agosto na comparação com julho e vai manter a trajetória de alta até dezembro.

Para julho, de acordo com Francini, há indicações de que o INA não deve ser brilhante. Ele ressalta que os efeitos das compras antecipadas do primeiro trimestre também vão influenciar os resultados da indústria em julho. "Ocorreu mais ou menos como uma ressaca, que você não tem possibilidade de prever exatamente como sairá dela", diz. "A vaquinha não foi para o brejo. Ela foi lá e deu apenas uma molhadinha na canela. Mas vai sair de lá, com certeza."

Essa análise é compartilhada por Campelo, da FGV, "O ajuste da indústria é transitório." Segundo o economista, a expectativa é de que, após o forte recuo ocorrido na produção de duráveis, o ritmo de atividade da indústria volte a crescer no terceiro trimestre. "O ritmo do terceiro trimestre será menor que o do primeiro trimestre, mas superior ao registrado no segundo trimestre", prevê.

Campelo pondera que, na última sondagem do consumidor feita pela FGV, foi detectada uma certa saturação nas compras de bens duráveis, o que poderia indicar que as pessoas estão proximas do limite de assumir novas prestações. Mas crescimento contínuo da renda e do emprego, o consumidor deve voltar às compras nos próximos meses.

Termômetro

0,4 ponto porcentual foi o recuo do nível de utilização da capacidade instalada de junho para julho, segundo a FGV

51,8 pontos foi o indicador da produção industrial em junho, segundo a CNI. Em maio, oindicador tinha alcançado 54,9 pontos

0,6% foi a queda do Indicador do Nível de Atividade da indústria paulista

registrada em junho na comparação com maio, com ajuste sazonal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.