Indicadores fiscais fracos são calcanhar de Aquiles do Brasil, diz Fitch

Diretora da agência considera que, apesar da arrecadação robusta, as despesas do governo avançam com força

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

27 de abril de 2010 | 09h29

A diretora de rating soberano da Fitch, Shelly Shetty, afirmou que os indicadores fiscais do Brasil são "relativamente fracos" em relação a outros fundamentos macroeconômicos e também ao próprio desempenho de contas públicas de países que já são investment grade. "É o calcanhar de Aquiles", disse ela, ressaltando que, apesar da arrecadação federal robusta, por causa da retomada vigorosa do nível de atividade do País, as despesas do governo também avançam com força.

 

"Em função dessa dinâmica, precisamos continuar monitorando os dados das contas públicas para avaliar se o Brasil cumprirá a meta de 3,3% do PIB do superávit primário neste ano", afirmou a jornalistas, antes de realizar palestra em São Paulo.

 

Shelly fez ainda um questionamento específico sobre a política do governo de estimular investimentos de longo prazo, com o orçamento do BNDES. O Tesouro liberou R$ 100 bilhões para o caixa do banco oficial em 2009 e concedeu mais R$ 80 bilhões neste ano. Segundo Shelly, esses recursos acabam incrementando a dívida pública bruta, que está ao redor de 63% do PIB.

 

Respondendo a uma pergunta da Agência Estado sobre a conveniência de um aporte de R$ 80 bilhões neste ano, quando a economia está aquecida, a diretora da Fitch comentou: "é um ponto de interrogação". Shelly ponderou que compreende a injeção de R$ 100 bilhões no orçamento do banco oficial em 2009, pois o País enfrentava os reflexos da forte recessão mundial, o que diminuiu oferta de crédito por bancos. Porém, para este ano, ela levanta dúvidas se o BNDES necessitava de um aporte adicional do Tesouro. "Entre as questões que envolvem a recente deterioração fiscal é preciso saber qual será o papel do banco", afirmou.

 

Boa parte da avaliação dura de Shelly sobre o desempenho das contas públicas está relacionada com o patamar da dívida pública bruta que está bem acima da média de 40% do PIB registrada pelos países que, como o Brasil, são investment grade pela Fitch. 

 

Shelly elogiou, por outro lado, o bom desempenho das contas externas do País nos últimos anos, o que colaborou de forma expressiva para o Brasil obter o grau de investimento da instituição. Hoje, essa poupança externa está um pouco acima de US$ 240 bilhões e a Fitch projeta que, ao final deste ano, chegará a US$ 255 bilhões.

 

Ela também elogiou a recuperação da economia nacional, que deve registrar, segundo ela, uma expansão de 5,5% neste ano e de 4,5% no ano que vem. A contrapartida deste aumento do PIB será o avanço do déficit em transações correntes, que deve chegar em 2010 a US$ 50 bilhões ou o equivalente a 2,5% do PIB. O crescimento da economia, por outro lado, deve gerar um nível de inflação maior, dado que ela prevê que o IPCA fechará este ano em 5,2% e 2011 entre 4,7% e 4,8%.

 

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou recentemente que a melhora da economia brasileira deve chamar a atenção das agências internacionais de rating, o que poderia ser interpretado como uma indicação de que o Brasil poderia receber um upgrade dessas instituições em breve. Perguntada pela Agência Estado quão perto o País está de uma melhoria de sua nota, Shelly fez um comentário de praxe: "estamos avaliando constantemente os indicadores do Brasil e é importante lembrar que o outlook do País é estável". O rating soberano do Brasil é BBB-. 

 

Texto ampliado às 11h23

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