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Indignação com o Mercosul

Próximo ao presidente francês, Mathieu Orphelin afirma que 'desde que Bolsonaro chegou ao poder, o ritmo de desmatamento da Amazônia quase dobrou'

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2019 | 04h00

O presidente Macron estava pisando em nuvens. Após um ano afogado pela revolta dos coletes amarelos, eis que ele voltou à tona. Sua popularidade, em declínio havia um ano, tornou a subir. Macron aproveitou isso para voltar a um assunto que abandonara: a política exterior. Mas ele tropeçou inesperadamente num grande abacaxi.

De início, nem viu que se tratava de um abacaxi. Ao contrário, achava que era uma maravilha. Trata-se do acordo com Mercosul, o grande acordo comercial que a União Europeia assinou com o bloco sul-americano em 28 de junho. Alguns dias antes, Macron estava entusiasmado: “Esse acordo é bom”, garantiu ele na cúpula do G-20, em Osaka, Japão.

Na manhã de domingo, ao ouvir o rádio, Macron compreendeu que o acordo não era tão bom assim. Para algumas pessoas próximas a ele, é mesmo detestável. Uma dessas pessoas, J.B. Moreau, resmungou: “Esse acordo foi assinado a toque de caixa pela Comissão Europeia, por essa Europa que as pessoas repudiam há anos, essa Europa que provocou o Brexit”. E advertiu: “O Mercosul é capaz de invadir o mercado europeu. Além disso, o Brasil está numa situação catastrófica, com os solos tornados estéreis pelo uso maciço de agrotóxicos”.

Mathieu Orphelin, próximo a Macron, engrossou o ataque: “Bolsonaro tem uma estratégia perversa e dissimulada. Ele adotou políticas radicalmente opostas ao Acordo de Paris sobre o clima. Desde que chegou ao poder, o ritmo de desmatamento da Amazônia quase dobrou. São mais 400 hectares de florestas destruídos por dia, o que significa 450 toneladas de gás carbônico jogadas na atmosfera. É uma bomba climática”.

Vedete dos verdes, Yannick Jadot bufou de cólera: “É uma vergonha a Comissão Europeia compactuar com esse Jair Bolsonaro, que é contra os democratas, as mulheres, os LGBTs e a Amazônia e homologou 239 pesticidas de janeiro para cá. Os verdes europeus batalharão sem trégua para bloquear (o acordo)”.

O ataque mais violento veio de Nicolas Hulot, o mais famoso ecologista francês. Engoliu tanto sapo quando foi ministro de Macron que hoje não consegue se conter. Ele bate: “O livre-mercado é a origem de todos os problemas ecológicos. Uma das primeiras providências a se tomar seria reformular toda ou parte de nossa economia. Mas, antes que nossas elites se entendam, podemos ser todos calcinados. A globalização, o livre-comércio, são a causa da crise que vivemos”. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*CORRESPONDENTE EM PARIS

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