'Indignados' cercam Parlamento na Espanha

Protesto contra austeridade é reprimido pela polícia e deixa 64 feridos e 26 presos

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2012 | 03h17

Antes comuns apenas na Grécia, as cenas de violência entre a polícia e grupos de manifestantes contrários à política de austeridade chegaram agora à Espanha. Ontem, em Madri, pelo menos 64 "indignados" ficaram feridos e outros 26 foram presos durante um protesto que resultou no cerco do prédio do Parlamento, onde novas medidas de rigor vêm sendo discutidas nessa semana. A multidão pedia a demissão do primeiro-ministro, Mariano Rajoy, que deve anunciar amanhã um novo pacote de aumento de impostos e de cortes de custos e investimentos públicos.

A manifestação, chamada 25-S - em alusão à sua data - vinha sendo convocada desde agosto nas redes sociais. Só no Facebook, mais de 50 mil pessoas teriam deixado mensagens aos vários grupos que participavam do movimento "Ocupe o Congresso". Desde que o apelo à mobilização foi lançando, o governo temia protestos de massa. Ontem, eles aconteceram. Enquanto porta-vozes de Rajoy falavam em 6 mil manifestantes, as imagens veiculadas pela imprensa mostravam uma multidão muito maior concentrada na Praza Neptuno, junto ao Parlamento.

Com gritos de ordem, os "indignados" denunciaram os "desmandos" dos mercados e o "sequestro da soberania do povo pela troica" - Comissão Europeia, BCE e FMI. Outros grupos pediam "um Congresso mais representativo". No final da tarde, aconteceram os primeiros confrontos, supostamente porque um sindicalista teria escalado a barreira de segurança para afixar uma bandeira do Sindicato Andaluz de Trabalhadores.

As imagens registradas pela agência Reuters mostraram a seguir agentes das Unidades de Intervenção Policial (UIP), as tropas de choque espanholas, dispersando a massa a golpes de cassetetes e prendendo manifestantes de maneira aleatória. Em menor número, os policiais foram encurralados. Os "indignados" reagiram com chutes e socos e jogando objetos nos agentes que haviam feito prisioneiros. Depois dos primeiros enfrentamentos, o efetivo policial foi reforçado com mais 1,3 mil homens.

Pressionados, os secretários de Estado do Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy saíram em defesa do premiê. "A última vez em que o parlamento foi cercado e tomado foi na tentativa de golpe de Estado", comparou Maria de Cospedal, secretária-geral do partido, referindo-se aos eventos de 1981.

A mobilização na Espanha vem crescendo na mesma medida em que o governo de Rajoy se aproxima de um pedido de socorro a Bruxelas. Essa perspectiva cresceu quando o presidente do BCE, Mario Draghi, estabeleceu o pedido de socorro ao Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE) como uma condição prévia à compra de dívidas públicas de um país em crise pela autoridade monetária. A condição, que surpreendeu Espanha e Itália, ampliou a pressão nos bastidores sobre Rajoy para que ele aceite o socorro - e a intervenção da troica.

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