Indignados e ressentidos
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Indignados e ressentidos

Opinião pública mundial usou todo o arsenal de adjetivos desabonadores para qualificar Trump

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 19h17

Perplexa com o resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos, a opinião pública mundial usou todo o arsenal de adjetivos desabonadores para qualificar Donald Trump: xenófobo, protecionista, intolerante, vulgar, histriônico, machista, desequilibrado, racista, despreparado... e por aí foram e continuam indo. E é verdade, Trump reúne tudo isso, em maior ou menor grau.

No entanto, a questão de fundo não é quanto de assustador reúna o perfil de Trump, mas as razões mais profundas que o empurraram para onde chegou. Trata-se do que fazer com o caldeirão de indignação e ressentimento revelado pelos 59 milhões de eleitores que conduziram Trump à Casa Branca.

Ele tratou as mulheres com notório desprezo e, no entanto, 42% delas votaram nele. Avisou repetidas vezes que deportaria os “ilegales” e construiria um muro de 3,2 mil quilômetros ao longo da fronteira com o México e, no entanto, 29% dos hispânicos votaram nele. Hillary é produto acabado da elite branca anglo-saxônica e, no entanto, 58% dos peles brancas votaram em Trump. E, apesar do tantas vezes explicitado racismo de Trump, ele ainda conseguiu que 8% dos negros votassem nele.

Parece claro que prevaleceram menos as condições de gênero, raça e cor do que a percepção geral do americano de que suas condições atuais de vida são piores do que as de seus pais; e as dos seus filhos, piores do que as deles próprias.

O sonho americano que é a convicção de que as oportunidades se abrem para quem seguir os manuais e der duro na vida ficou seriamente ameaçado pela crise, pelo desemprego, pela desvalorização abrupta do patrimônio das famílias. Na percepção das classes médias americanas, isso tem a ver com os efeitos da globalização, com a entrada franca de produtos estrangeiros, com a transferência de fábricas para o outro lado dos oceanos e com a imigração.

Trump não conseguirá trazer de volta as montadoras de veículos. Não conseguirá recuperar as indústrias do Cinturão da Ferrugem. E se pretender levar às últimas consequências seu brado de guerra “put America first”, o mais provável é que obtenha que cada país trate de adotar para si próprio o mesmo princípio. Na última sexta-feira, editorial do diário francês Le Monde levava o seguinte título: Diante do desafio Trump, Europe first. É briga de soma zero.

Não é apenas nos Estados Unidos que as classes médias se sentem alijadas e esquecidas, insatisfeitas com os políticos e com tudo o que está aí. Estão todos com o prato na mão, mas a sopa não dá para todos, como prometido.

Quando isso aconteceu nos países socialistas, os dirigentes desistiram da ditadura do proletariado e de velhos ideais, caiu o regime e todos, da China à antiga União Soviética, trataram de adotar versões locais do sistema capitalista. Agora que algo parecido acontece no regime capitalista, não há o que pôr no lugar, não há solução clara. Os Tesouros nacionais estão quebrados e, assim, a saída fiscal que pressupõe grande crescimento das despesas públicas é impraticável. Também deu o que tinha de dar a gigantesca expansão monetária promovida pelos grandes bancos centrais.

Em outros tempos, uma guerra ajudava a resolver encrencas assim. Agora, parece não haver opção senão recorrer à negociação e ao entendimento. E Trump não parece talhado para a hora.

CONFIRA

As intervenções do Banco Central no mercado de câmbio na sexta-feira mostraram que há limites para a livre flutuação do dólar. Mostraram, também, que o Banco Central está disposto a usar munição para impedir excessiva volatilidade, especialmente quando vier descolada de tendência firme.

Na medida em que conseguir reequilibrar o mercado de câmbio, a atuação do Banco Central contribui, também, para reduzir o impacto inflacionário que adviria de forte desvalorização do real que puxasse a inflação a partir do encarecimento dos produtos importados.

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