Índios deixam frigoríficos sem carne

Contrários à barragem, índios interrompem travessia e prejudicam transporte de cargas

FÁTIMA LESSA E CARLOS MENDES, ESPECIAL PARA O ESTADO, DE CUIABÁ E BELÉM, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

A paralisação da travessia por balsa no Rio Xingu na região que liga São José do Xingu a outros municípios da região nordeste de Mato Grosso e até do Pará deve provocar desabastecimento nos frigoríficos de Matupá e de Colíder a partir de segunda-feira.

Frigoríficos como Guaporé Carnes em Colíder e Frialto em Matupá já começam a contabilizar os prejuízos. A paralisação da balsa, que começou na quinta-feira, foi uma decisão de lideranças do Parque do Xingu em protesto contra o leilão da Usina de Belo Monte, a ser construída em Altamira do Pará.

A balsa tem capacidade para 300 toneladas (quatro carretas) e atende os usuários da BR-080 na travessia do Xingu, sendo utilizada para o escoamento da produção de grãos e transporte de gado para frigoríficos.

O gerente de compra de boi do Frialto, Natalino Sanchez Filho, disse que só tem gado para abate até este sábado porque esta fazendo remanejamento. "No sábado, já vamos operar com apenas 50% da capacidade." O grupo abate 800 cabeças por dia.

No primeiro dia da paralisação da balsa, cinco caminhões do grupo tiveram de retornar às fazendas de origem em São José do Xingu. "Já estamos com a escala comprometida", afirmou.

Ao todo, o grupo tem 27 caminhões do outro lado do rio, que deveriam chegar com cerca de 1.500 cabeças até a próxima semana. "Se for por tempo indeterminado, o prejuízo será ainda maior a partir de segunda-feira."

A paralisação de uma unidade de produção geraria, segundo ele, prejuízos em torno de R$ 400 mil. Além de abastecer todas as regiões do Brasil, o grupo também tem boa fatia na carne exportada a vários países.

Já o gerente da Guaporé Carnes, Claudio Silva, disse que, se a paralisação continuar, pode comprometer de 1% a 2% da produção. O grupo não depende só de São José do Xingu, mas tem umas "três cargas", em torno de 60 cabeças, para atravessar na próxima semana.

Inchaço. O consórcio de 11 municípios que direta ou indiretamente serão atingidos pela usina Monte está insatisfeito com os programas do governo federal para reduzir os impactos ambientais e sociais da obra na região do Xingu.

Em carta ao governo, os prefeitos afirmam que o projeto está muito aquém das necessidades básicas da região e acrescentam uma informação preocupante: antes mesmo do início da obra a migração de brasileiros de outras regiões para o Xingu começa a inchar cidades como Altamira, Vitória do Xingu, Senador José Porfírio e Anapu.

Para os prefeitos, o governo precisa se antecipar, investindo nas compensações ambientais e sociais antes do início das operações da usina. Se isso não for feito, eles preveem um cenário de caos no Xingu.

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