Índios interrompem balsa em protesto contra hidrelétrica

Lideranças indígenas decidiram antecipar ato previsto para amanhã e suspenderam desde as primeiras horas de hoje a balsa no rio Xingu na travessia que liga São José do Xingu a outros municípios de Mato Grosso e também do Pará. Os protestos fazem parte de um calendário previsto pelos povos do Xingu e que recomeçaram neste segundo semestre com a manifestação na Aldeia Piaraçu, na terra indígena Kapot/Jarina desde a semana passada contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte em Altamira oeste do Pará.

FÁTIMA LESSA, Agencia Estado

03 de novembro de 2009 | 18h21

Cerca de 50 caminhões de boiadeiros foram impedidos de passar. O serviço de balsa é usado diariamente por cerca de 60 caminhões, 30 carros de passeio e ônibus. A suspensão continua amanhã a partir das 7 horas e deve ser mantida, pelo menos, até o encerramento de um encontro que acontecerá amanhã em Brasília para discutir "direitos indígenas".

Em carta que será entregue ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinada por cerca de 300 lideranças, os índios ameaçam com "ação guerreira por parte dos povos indígenas do Xingu" caso o governo brasileiro não desista do projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte prevista para ser erguida em Altamira oeste do Pará.

Na quinta-feira está prevista uma reunião na Vila Roçada, município de Senador José Porfírio (PA), que reunirá lideranças indígenas, moradores ribeirinhos, procuradores da República, pesquisadores da USP e advogados. Mesmo sem ter obtido nenhuma das três licenças necessárias (a prévia, de instalação e de operação), o empreendimento deve ser oferecido em leilão em dezembro.

No documento entregue ao presidente Lula, eles questionam a forma como o processo de licenciamento vem sendo conduzido pelo governo e reclamam da falta de diálogo com os povos indígenas que, segundo eles, "não teriam sido ouvidos, nem recebido as informações a que têm direito". Na carta dizem também que não aceitam que "o governo tome uma decisão de tamanha irresponsabilidade e que trará consequências irreversíveis para essa região e nossos povos, desrespeitando profundamente os habitantes ancestrais deste rio e o modelo de desenvolvimento que defendemos".

Há cerca de duas semanas, a Funai (Fundação Nacional do Índio), órgão do governo emitiu parecer favorável no que concerne à avaliação do componente indígena dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) da obra. A comitiva indígenas exige uma reunião com o presidente do órgão, Mercio Meira, para "cobrar explicações sobre este parecer, que contraria a opinião das 283 lideranças indígenas presentes no encontro".

Os questionamentos sobre a hidrelétrica de Belo Monte são antigos e incluem aspectos técnicos, socioambientais e sobre sua viabilidade econômica. Segundo o projeto apresentado pelo governo, dadas as condições de cheia e vazante, o aproveitamento em boa parte do ano não ultrapassaria os 40% dos 11.233 megawatts instalados.

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