Indústria ataca cigarros eletrônicos

Indústria ataca cigarros eletrônicos

Fabricantes tradicionais de cigarro adotam alertas agressivos contra os mais novos concorrentes da indústria tabagista

MATT RICHTEL, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2014 | 02h06

As empresas da indústria do tabaco, há muito consideradas o inimigo n.º 1 da saúde pública, se disfarçaram subitamente de defensoras da saúde pulmonar na era digital. São elas que apresentam alguns dos alertas mais contundentes para os danos à saúde causados pela nascente indústria dos cigarros eletrônicos, indo além mesmo dos alertas já conhecidos que estampam os maços de cigarros normais, considerados uma das principais causas de morte entre adultos. Isso deixou os funcionários da saúde pública perplexos e céticos.

Um dos alertas, preparado pela Altria, fabricante do Marlboro, diz: "A nicotina vicia e pode causar dependência, sendo extremamente tóxica quando inalada, em contato com a pele ou engolida". Outro, da Reynolds American, fabricante do Camel, diz que o produto não é voltado para pessoas "com instabilidade cardíaca, pressão alta ou diabetes; nem pessoas que tomem medicamentos para depressão ou asma".

Os alertas aparecem na embalagem dos cigarros eletrônicos dessas empresas, parte de uma indústria em rápido crescimento sobre a qual as empresas do tabaco buscam consolidar seu domínio. Usados de maneira voluntária, os alertas em geral vão além dos avisos moderados, do silêncio ou mesmo das afirmações de benefícios à saúde feitas pelas fabricantes menores de cigarros eletrônicos. Um deles, estampando uma caixa de cartuchos de nicotina para os cigarros eletrônicos MarkTen, marca que a Altria está lançando mundialmente, contém mais de 100 palavras.

"Quando li tudo aquilo, quase caí da cadeira", disse o dr. Robert K. Jackler, professor da faculdade de medicina de Stanford, onde comanda pesquisas envolvendo a publicidade de cigarros convencionais e eletrônicos. "Trata-se de parte de um esforço nobre para a melhoria da saúde pública, ou uma cínica estratégia de negócios? Suspeito que seja o segundo caso", disse Jackler.

Motivação legal. Especialistas que há anos estudam o comportamento das empresas do tabaco dizem suspeitar dessas motivações, acreditando que os alertas sejam principalmente uma forma de baixo custo encontrada por essas empresas para se defenderem de processos futuros e, de maneira geral, darem a impressão de serem responsáveis, transparentes e sinceras. Além disso, com esse comportamento elas parecem ser mais responsáveis do que as empresas menores de cigarros eletrônicos que buscam tirar delas uma fatia desse mercado.

Em resposta, William Phelps, porta-voz da Altria, disse que os alertas no cigarro eletrônico MarkTen refletem "a meta de manter uma comunicação aberta e sincera em relação aos efeitos para a saúde", e que os alertas têm como base "pesquisas científicas" e "alertas desenvolvidos anteriormente" para os produtos contendo nicotina.

"Aqueles que não as conhecem talvez pensem que elas parecem ser empresas cidadãs e responsáveis", disse Cynthia Cabrera, diretora executiva da Smoke-Free Alternatives Trade Association, grupo que defende os interesses da indústria dos cigarros eletrônicos. Ela considera os alertas "desonestos", especialmente a afirmação do MarkTen segundo a qual a nicotina é "extremamente tóxica" quando inalada, engolida ou colocada em contado com a pele. Isso não é verdadeiro em se tratando da dosagem contida nos cigarros eletrônicos, disse ela.

Cynthia acredita que as grandes empresas do tabaco tenham um motivo oculto, talvez aparecer para o público e para as autoridades como companhias de mais credibilidade do que as empresas menores.

Allan Brandt, professor de história da medicina e da ciência da Universidade Harvard disse que os alertas são parte de uma prática antiga da indústria: a criação de zonas cinzentas científicas. "Trata-se de uma prática incrivelmente eficaz e ambígua que inventa novas incertezas", diz Brandt. "É uma forma de ganhar tempo. Em se tratando dos produtos tradicionais contendo tabaco, as empresas ganharam 40 anos de debates." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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