Indústria automotiva planeja para driblar dificuldades

Uma das armas da indústria automotiva para enfrentar as dificuldades do excesso de capacidade instalada, alta dos custos e retração nas vendas é o planejamento. O Instituto Gaúcho de Estudos Automotivos (IGEA) está realizando um mapeamento da cadeia produtiva estadual, o que permitirá identificar falhas e também oportunidades de negócios, explicou o coordenador do conselho técnico da entidade, Paulo Cirne Lima.O trabalho deve ser concluído em junho de 2003, informou nesta terça-feira Cirne Lima, depois da abertura do 1º Congresso Sul-Brasileiro da Indústria Automotiva, que prossegue até esta quarta-feira na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul.Variação cambialO banco de dados que será formado mostrará o status financeiro das empresas, nível de compra, capacidade de fornecimento e itens produzidos. Outra meta do IGEA é ampliar a produção local de componentes para as montadoras instaladas no Rio Grande do Sul, dos atuais 28% para 42% até 2005.A fórmula ajuda a amenizar as perdas com a variação cambial de itens importados, já que é cada vez mais difícil repassar os aumentos de custo para as montadoras, disse o presidente do conselho deliberativo do IGEA, Paulo Tigre.Automóvel popularNa ponta do mercado, a indústria conta com uma proposta para alavancar as vendas de automóveis populares. O projeto já foi entregue ao governo, que ainda não deu sua resposta, lembrou Tigre. Por esta idéia, as famílias de menor renda formariam uma poupança para a aquisição do veículo, explicou o dirigente.Com capacidade instalada para 3 milhões de veículos, a indústria projeta vendas de 1,8 milhão este ano.Semi-eixosNa contramão do setor de autopeças no Brasil, que prevê queda de 6% na produção física de 2002, a GKN Automotive está com dificuldades de atender à demanda. O presidente da companhia para a América do Sul, Wilson Gomes de Andrade, disse que o volume de pedidos já obrigou a indústria a importar algumas peças que compõem seus semi-eixos homocinéticos de outras unidades da GKN na França e Alemanha para atender às encomendas.Os semi-eixos equipam automóveis de passageiros e veículos comerciais leves. "Abrimos mão de resultado para não deixar o mercado sem produto", comentou. Além dos lançamentos de veículos das montadoras instaladas no Brasil, o crescimento da demanda seguiu o aumento de exportações, que passaram de 7% das vendas em 1999 para 22% neste ano.A GKN está usando linhas industriais com ociosidade para equilibrar a produção com aquelas em que a disponibilidade está esgotada. Mudança na plataformaO sistema de produção de veículos em plataformas globais, que foi implantado nos últimos cinco a oito anos no Brasil, tende a sofrer mudanças, previu nesta terça-feira o consultor sênior da Roland Berger Strategy Consultants, Cristiano Sampaio Doria.Em palestra durante o 1º Congresso Sul-Brasileiro da Indústria Automotiva, Doria destacou que esse modelo, com mais de 50% de especificações comuns para a produção de veículos mundiais, desconsiderou diferenças regionais importantes entre os mercados dos países desenvolvidos e emergentes.DiferençasSegundo ele, o conceito de carro global gerou uma "superespecificação" dos modelos destinados aos países emergentes. Ele citou, como exemplo, os sistemas elétricos de veículos desenvolvidos para operar em baixas temperaturas na Europa. Ao serem transferidos para o Brasil, eles precisariam passar por uma adaptação para o clima tropical.Entre os mercados desenvolvidos e emergentes, há diferenças também de emissão de poluentes e itens obrigatórios de segurança que podem significar redução de custos para as montadoras, ressaltou Doria. "As plataformas globais podem existir, mas este aspecto precisa ser considerado", afirmou o consultor, sobre as particularidades regionais.Concorrência ao BrasilPara ele, há sinais de que esta revisão de foco já começou na indústria automotiva, mas para chegar à melhor fórmula o setor levará cerca de dois anos desde a definição de modelos até sua produção. O Brasil pode aproveitar sua experiência e tecnologia para a produção de carros pequenos, segmento no qual se destaca e que encontra mercado nos países emergentes."A tendência é enxergar o Brasil como pólo exportador de produtos de baixo custo", estimou. Os principais concorrentes que podem atrapalhar os planos brasileiros são a China e a Índia, que já perceberam esta tendência, disse Doria. Os dois países têm mão-de-obra mais barata, mercado local proporcionalmente maior e parques industriais em expansão. Além de vender veículos, o Brasil pode se firmar também como exportador de projetos, sugeriu o consultor.

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