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A crise na Argentina, o principal comprador de manufaturados brasileiros na América Latina, sobretudo de carros, também agravou o resultado das exportações da indústria de média/alta tecnologia TASSO MARCELO/AE

Indústria com mais tecnologia tem o menor peso na exportação em 24 anos

Segmentos de alta e média/alta tecnologia, que produzem itens como veículos, aviões, máquinas e remédios, responderam em 2019 por 32% das vendas externas da indústria de transformação, menor fatia desde 1995

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 23h30

O Brasil está perdendo a corrida para exportar produtos manufaturados de maior valor. A indústria de alta e média/alta tecnologias – que produz itens como veículos, peças automotivas, aviões, máquinas e remédios – respondeu em 2019 por 32% das vendas externas da indústria de transformação, a menor participação desde 1995. O levantamento é do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), e segue os critérios da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

De acordo com o economista do Iedi, Rafael Cagnin, a queda nas exportações desses produtos, que somaram US$ 40,2 bilhões no ano passado, coloca a engrenagem do crescimento do País para girar no sentido oposto. Como produz itens mais elaborados, que envolvem mais insumos e outras fabricantes na cadeia de fornecedores, a indústria que aplica mais tecnologia tem mais potencial para gerar emprego, renda e injetar dólares na balança comercial.

A disputa entre EUA e China levou a uma forte desaceleração do comércio global em 2019, que deve ter crescido 1,5%, menos da metade do que no ano anterior. Isso causou uma queda generalizada (de 7,9%) das exportações da indústria de transformação nacional, a primeira retração desde 2015.

As turbulências na conjuntura mundial desnudaram problemas estruturais de longa data, como a baixa competitividade dos produtos da indústria brasileira em relação aos concorrentes por causa do elevado custo Brasil. 

Segundo Cagnin, o quadro de mais incerteza no mundo prejudicou particularmente as vendas de produtos com maior tecnologia. “Quando o ambiente de negócios é ruim e falta previsibilidade, como em 2019, consumidores e empresas freiam compras de maior valor.” 

A crise na Argentina, o principal comprador de manufaturados brasileiros na América Latina, sobretudo de carros, também agravou o resultado das exportações da indústria de média/alta tecnologia. No ano passado, o tombo das vendas externas desse segmento foi de 14,2% ante 2018. O resultado foi influenciado por veículos (-24,7%), mas também houve retrações significativas em produtos químicos (-9,6%) e em máquinas (-7,7%).

A queda nas exportações dos fabricantes de alta tecnologia foi ainda mais expressiva: 15,7%, a maior em dez anos. O resultado foi puxado para baixo pela indústria aeronáutica e aeroespacial (-21,9%) e de medicamentos (-2,5%). 

No caso dos aviões, cuja produção está concentrada na Embraer, André Castellini, sócio da Bain & Company e especialista do setor, diz que o mercado de jatos regionais está mais disputado e que a empresa está introduzindo um novo modelo. Esses fatores explicariam a retração.

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Brasil perde posição em vendas externas

Em dez anos, País caiu do 29º para 32º em ranking dos maiores exportadores de manufatura; mercado é concentrado na América Latina

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 05h00

Nono parque industrial do mundo, o Brasil diminuiu ainda mais a pouca relevância que tinha no comércio externo de produtos manufaturados. Em 2008, respondia por 0,81% das vendas externas em valor desses produtos. Dez anos depois, fatia tinha recuado para 0,62%.

No mesmo período, caiu da 29.ª posição do ranking dos maiores exportadores de manufatura para o 32.º lugar, de acordo com a Organização Mundial do Comércio. “Houve uma involução bastante firme das exportações brasileiras de manufaturados”, diz Rafael Cagnin, economista do Iedi.

Segundo levantamento da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), em 2019, os produtos manufaturados representaram 34,6% das exportações totais do País, a menor fatia em quase 40 anos. Em 2000, essa participação beirou 60%.

Uma das razões da pequena presença dos manufaturados nas exportações se deve ao forte mercado doméstico, que é o ganha pão da maioria das indústrias brasileiras. Mas o principal obstáculo ao avanço das exportações apontado por empresários e economistas é o custo Brasil, uma série de despesas que torna a produção nacional desvantajosa para o exportador em relação aos concorrentes. 

O presidente da AEB, José Augusto de Castro, lembra que, por muito tempo, a taxa de câmbio ancorava as discussões sobre o desempenho das exportações brasileiras. Hoje, ele acredita que o câmbio, ao redor de R$ 4,10, é adequado e que a redução do custo da produção é a questão central do debate. “O custo é definitivo, a taxa de câmbio é temporária, flutua e não é fator de competitividade.”

Castro ressalta ainda que o mercado para as vendas de produtos brasileiros está concentrado na América do Sul. “Estamos num mercado que representa 3% das exportações mundiais e os outros 97% estão largados, pois não temos preços competitivos de manufaturados para vender para os EUA, Europa, muito menos para a China.”

Estudo feito pelo Boston Consulting para o Ministério da Economia calculou que o custo de se produzir no Brasil é R$ 1,5 trilhão (22% do PIB) superior na comparação com a média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O trabalho considerou 12 áreas vitais para a competitividade, da abertura ao fechamento de um negócio, passando por impostos, burocracia, infraestrutura etc.

“Poderíamos ter um PIB muito maior, caso não tivéssemos esse custo”, afirma José Ricardo Roriz Coelho, vice-presidente da Fiesp e presidente da Abiplast. Assim como Castro, Roriz considera que o câmbio está adequado e o problema é que o custo Brasil afeta a competitividade.

Desincentivos

O presidente executivo da Abimaq, José Velloso, diz que no Brasil há “desincentivos” para exportar. Entre os fatores que desestimulam as exportações, que no ano passado caíram 7% no setor, ele aponta a falta de financiamento e dificuldades de obter ressarcimento de créditos de impostos gerados na compra de matérias-primas.

A indústria farmacêutica é outro setor de alta tecnologia que teve recuo nas exportações. Segundo Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, o controle de preços dos remédios no mercado interno inibe investimentos em inovação na indústria. “Exportamos só produto velho.” Hoje, o setor vende no exterior 6% da produção.

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Indústria demitiu e deu férias para se ajustar

Com queda de 15% na exportação Fupresa dispensou 15%; Marcopolo deu férias coletivas nas cinco fábricas no País

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 05h00

O ano de 2019 não foi bom para a Fupresa, que fabrica, em Indaiatuba (SP), peças e componentes para caixa de câmbio e motores. Essas autopeças são classificadas como produtos de média/alta tecnologia. A empresa, que tem mais da metade do faturamento voltado para exportação, registrou queda de 15% nas vendas em euros para Alemanha, França e Espanha no ano passado.

Por causa dessa retração, provocada pelo recuo do consumo no mercado europeu, a indústria teve de ajustar a produção. É que essas autopeças feitas para determinados modelos de veículos europeus não são absorvidas no mercado nacional.

A saída encontrada pela companhia foi colocar o pé no freio da produção. “Reduzimos um turno de trabalho, de três para dois, e entre 10% e 15% o número de funcionários”, conta Paulo Butori, presidente da Fupresa. 

A empresa, que fatura cerca de US$ 30 milhões por ano, chegou a ter 65% da receita vinda do mercado externo em 2018. No ano passado, essa fatia recuou para 55%. 

Produtos de média/alta tecnologia, como as autopeças, são fabricados em indústrias que participam de cadeias longas de produção que envolvem muitos outros fabricantes e empregos. Nos cálculos de José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), para cada US$ 1 bilhão exportado de produtos manufaturados são gerados 50 mil empregos diretos e indiretos. Quando a roda da economia gira no sentido contrário, há demissões na cadeia, como ocorreu na Fupresa.

Segundo o Sindipeças, as exportações do setor caíram 11,4% sobre 2018. Dan Ioschpe, presidente da entidade, explica que a queda foi puxada pelo mercado argentino, principal parceiro comercial e que passa por forte crise.

A Marcopolo, por exemplo, fabricante de carrocerias de ônibus, sentiu os efeitos da crise no país vizinho. As exportações totais da companhia caíram 21% em 2019 em número de unidades, um pouco menos que a retração registrada pelo mercado, de 24%. José Luiz Moraes Goes, gerente executivo de Negócios Internacionais para Américas, aponta a crise na Argentina e as turbulências que houve em mercados importantes da América Latina para a empresa, caso do Chile, como fatores que levaram à retração. Além disso, em 2018, a empresa tinha feito uma grande venda para países africanos, evento que não se repetiu em 2019.

Goes diz que não demitiu para ajustar a produção. Mas deu férias coletivas nas cinco fábricas que tem no País. Também aumentou em 20% as vendas de carrocerias de ônibus no mercado doméstico para compensar a queda nas exportações.

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A exportação espelha as condições de produtividade

Não é preciso ser o campeão de novas tecnologias, mas é preciso ter condições de adaptar, fazer inovações e saber utilizar

Lia Baker Valls Pereira*, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 05h00

As exportações da indústria de transformação recuaram em valor (-8,5%), volume (-3,4%) e preços (-5,3%), segundo o ICOMEX (Indicador de Comércio Exterior elaborado pelo FGV IBRE). O menor crescimento da economia mundial e a crise na Argentina contribuíram para esse resultado. Essa queda, porém, levanta questões que vão além de fatores conjunturais, sendo a principal o tema da competitividade/produtividade. A produtividade da indústria de transformação caiu 0,9% entre 2013 e 2018, e cresceu na agropecuária em 7,1%, segundo informação do Observatório de Produtividade do FGV IBRE. O último dado que compara o 3º trimestre de 2019 com o 3º trimestre de 2018 mostra que essa tendência da indústria não mudou: houve queda de 2,3%. Em primeiro lugar, portanto, o aumento da oferta das exportações depende dos fatores que afetam a produtividade, e a lista é conhecida – reformas que afetam diretamente o custo de produção das empresas, como a tributária e a das tarifas de importações. Essa última deve permitir o barateamento dos custos dos insumos e dos bens de capital importados. Em segundo lugar, melhoras no ambiente físico e institucional em que as empresas operam para reduzir custos de transação: investimentos em infraestrutura que melhorem os canais de escoamento dos produtos e medidas de facilitação de comércio que diminuam os custos com procedimentos administrativos pouco eficientes.

Algumas dessas medidas, em especial as de facilitação do comércio, já estão em curso e têm sido aprimoradas nos últimos anos. No entanto, aumentar a participação no comércio mundial de manufaturas onde a presença dos produtos brasileiros não ultrapassa historicamente 1% exige estar presente nos fluxos mais dinâmicos, aqueles em que a demanda mundial cresce em volume acima da média mundial. Nesse caso, estamos falando dos produtos de alta e média tecnologia que possuem um conteúdo elevado de serviços embutido. Não se trata de escolher setores/empresas e nem de distribuir subsídios que protegem muitas vezes ineficiências de empresas. É preciso assegurar as bases que sustentam o aumento da produtividade via educação, pesquisa e desenvolvimento. Não é preciso ser o campeão de novas tecnologias, mas é preciso ter condições de adaptar, fazer inovações e saber utilizar. As políticas públicas de educação, ciência e tecnologia são cruciais para o aprimoramento da oferta exportável no Brasil.

*É pesquisadora associada do FGV IBRE e professora da UERJ/FCE, com pós graduação em Relações Internacionais

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