Indústria começa a dar sinais de recuperação

A indústria brasileira começa a se recuperar da retração do ano passado e está normalizando suas atividades no primeiro trimestre de 2002. De acordo com a sondagem conjuntural feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com 1.285 empresas, até março haverá aumento de produção, de demanda e de emprego, apesar da diminuição de compras, típica desta época do ano. Indicadores também divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) confirmam que nos próximos seis meses haverá realmente avanço no faturamento, compra de matérias-primas e de exportação na indústria, mas prevêem uma leve redução do nível do emprego. A disposição para contratar, revelada por 21% das indústrias consultadas pela FGV, surpreendeu o coordenador da pesquisa, economista Salomão Quadros. No primeiro trimestre do ano, geralmente as dispensas na indústria superam as contratações, mas na pesquisa apenas 19% informaram intenção de demitir. "As empresas podem ter promovido, no ano passado, corte de pessoal além do necessário, e agoram começam a corrigir seus quadros." Segundo o coordenador da sondagem da CNI, Renato Fonseca, 25% das pequenas e médias indústrias e 19% das grandes revelaram disposição de reduzir a folha de pessoal, embora boa parte das indústrias têxteis e metalúrgicas tenha informado que vai contratar. Apesar disso, os indicadores de caráter geral - sobre a economia, setor de atividade e sobre a empresa do entrevistado - ficaram todos acima de 60 pontos na sondagem. Isso não ocorria desde o primeiro trimestre de 2001, período anterior à série de choques enfrentados pela economia brasileira. Salomão Quadros, da FGV, destacou que, dentre as empresas ouvidas, 45% disseram esperar uma situação melhor para seus negócios neste primeiro semestre de 2002 e 11% disseram estar se preparando para um cenário pior. O saldo entre as melhores e a piores perspectivas, de 32 pontos porcentuais, é bem maior do que o de outubro de 2001, que era de 12 pontos. Isso indica uma tendência de melhora de desempenho. Mas ainda é bem inferior do que o do início do ano passado, que registrou 54 pontos. A pesquisa, trimestral, é feita há mais de 35 anos com um excelente nível de confiabilidade nas respostas. Mercado interno - Quadros destaca o primeiro trimestre de 2001 como um marco, no qual a indústria brasileira vivia um momento de tranqüilidade. Mesmo assim, havia mais empresas prevendo que a demanda seria fraca do que o contrário, embora a grande maioria apostasse na normalidade. Agora, ainda há mais empresas apostando em demanda fraca, mas a previsão de aumento (11% das indústrias) chegou ao mesmo nível do início do ano passado. O aumento da demanda neste trimestre - de cinco pontos porcentuais, o maior desde o primeiro trimestre de 1995 - é causado inteiramente pelo mercado interno, já que as vendas externas não esboçaram ainda nenhuma retomada de crescimento. A utilização da capacidade instalada da indústria em janeiro de 2002 permanece baixa (79,5%). É a terceira menor desde janeiro de 1995 e revela uma ociosidade maior da indústria. Mas já se aproxima do nível de outubro de 2001 em linhas gerais e, com o ajuste sazonal (descontadas as peculiaridades comuns a cada mês), passa aquele resultado em 1,6 ponto porcentual. "A situação dos negócios ainda não é boa, mas é bem melhor do que no segundo semestre do ano passado", diz Quadros. Para ele, outro bom indicador de tendência é o nível dos estoques das fábricas. Ele lembra que setores como o de bens duráveis (de produtos como automóveis e eletroeletrônicos) estavam "ultraestocados" e já estão em condições normais. "Algumas empresas já estão recompondo estoques, o que é um bom sinal", diz o economista, revelando que 6% das empresas demonstraram intenção de ampliar a capacidade instalada. A pesquisa da CNI demonstrou que, apesar de apostar no aumento das vendas externas nos próximos seis meses, o empresariado industrial ainda está cauteloso quanto às exportações para o futuro próximo. Esse cuidado reflete, provavelmente, "o desaquecimento da demanda mundial e o aprofundamento da crise que assola a Argentina", segundo Renato Fonseca. A proporção de empresas que esperam manter inalteradas as exportações manteve-se, comparado à pesquisa anterior, em 43,7% das pequenas e médias empresas ouvidas e em 43,1% das grandes.

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