Indústria da Argentina cresce, mas inflação é ameaça, dizem analistas

Governo tenta realizar acordos com empresários de diversos setores para segurar os preços

Marina Guimarães, da Agência Estado,

26 de fevereiro de 2010 | 11h28

A indústria da Argentina cresceu 8,2% em janeiro, na comparação com igual mês de 2009, de acordo com projeções da Fundação de Investigações Econômicas Latino-Americanas (Fiel). As previsões para o resto do ano também são de crescimento, mas a disparada da inflação é a grande ameaça. O governo tenta, desesperadamente, realizar acordos com os empresários de distintos setores com o objetivo de segurar os preços. Por causa da proximidade da Semana Santa, os primeiros produtos que o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, tenta tabelar são os peixes e frutos do mar mais populares, como merluza e lula.

 

Para o secretário da União Industrial Argentina (UIA), Ignacio de Mendiguren, "sem um plano de combate à inflação, o crescimento corre risco de ser comprometido". A escalada nos preços dos alimentos durante o último mês levou a inflação de fevereiro a um piso de 1,2% e um teto de 1,7%, conforme prognóstico dos analistas. A cifra encontra-se abaixo do nível registrado em janeiro, que chegou a 2%, segundo medições privadas, e 1%, de acordo com o questionado Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). Porém, o número é alarmante, na avaliação dos economistas ouvidos pela Agência Estado, já que está acima da inflação verificada em anos anteriores.

 

"O IPC estava alto em 2007 e 2008, quando a economia crescia a uma média de 8% anual. Mas nesse primeiro bimestre (2010), a indústria está apenas começando a se recuperar da crise de 2009 e já exibe uma alta maior que naqueles anos", explica o economista Rodrigo Alvarez, da consultoria Ecolatina, que estima inflação entre 1,3% a 1,5% em fevereiro. Conforme os cálculos da consultoria Orlando Ferreres & Associados, fevereiro vai fechar com inflação em 1,7%, enquanto que o Estúdio Bein projeta cifra de 1,2%. Em igual mês do ano passado, o IPC calculado por estas consultorias foi de 0,6%, 1% e 0,7%, respectivamente.

 

Os economistas explicam que os alimentos são os grandes vilões dos aumentos, começando pela carne, que acumula alta de 70% desde a semana do Natal até o momento. No entanto, a escalada de preço do novilho começou a ser contida, na última semana, com a pressão do governo sobre os produtores, segundo observa o analista Fausto Spotorno, da Ferreres. Mas os preços das frutas, legumes, verduras, lácteos, óleos, confecções (mudança de temporada) e outros produtos e serviços continuam com remarcações, que obrigaram os analistas a revisar as projeções anuais da inflação.

 

"As projeções iniciais eram de 20%, mas agora estamos mais perto de 25%", disse Alvarez. Sem um plano de combate à inflação, o governo contra-ataca os prognósticos com acordos de preços, de duvidosa eficácia. Nesta semana, Moreno acertou com os fabricantes de artigos escolares, livrarias e supermercados, a criação de uma espécie de cesta escolar econômica. Há quatro anos que os acordos setoriais vêm sendo negociados pelo "xerife" dos preços, apelido que ganhou por portar arma de fogo durante reuniões com produtores rurais e pelas ameaças que costuma realizar aos empresários. O ministro de Economia, Amado Boudou, nega uma "alta generalizada" dos preços e afirmou, recentemente, que o governo "sempre vai buscar acordos para que os preços baixem".

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