Indústria da energia solar sobreviverá sem subsídios?

A China deu início a um programa de incentivo ao setor como alternativa ao fomento público

The Economist, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 05h00

Há pouco mais de uma década, quando a JinkoSolar, empresa com sede em Xangai, começou a atuar na área, era uma companhia tão novata que nas feiras internacionais seus representantes tinham dificuldade para encontrar uma mesa com uma placa com seu nome escrito nela. Mas a empresa tinha sorte, avanço tecnológico e muito dinheiro público respaldando-a.

Globalmente, o setor estava em situação favorável no tocante a subsídios. As tarifas para incentivar as energias renováveis, conhecidas como FITs, e os incentivos financeiros para instalação de painéis solares tornaram a Alemanha o maior mercado em 2010. Os alemães se voltaram para a China para comprar fontes de painéis solares de silício cristalino baratos, uma vez que empréstimos e espaços subsidiados oferecidos para as incipientes fabricantes chinesas permitiram que elas ultrapassassem suas concorrentes americanas e europeias.

Quando os subsídios despencaram durante a crise do euro, o governo chinês decidiu apoiar os seus defensores da energia renovável oferecendo incentivos para lotear a remota região oriental da China de fazendas solares. Em 2013, a China passou a Alemanha nessa área. No ano passado instalou 53 gigawatts (GW), quase cinco vezes mais do que os EUA, hoje o segundo maior mercado. A Jinko tornou-se a maior provedora de painéis solares em 2016, exportando quase 10 GW no ano passado. Seis das 10 maiores fabricantes são chinesas.

Esses altos e baixos são conhecidos no mundo como “solar-coaster” (montanha-russa solar): do mesmo modo que os subsídios podem fomentar um mercado, sua retirada pode derrubá-lo. Foi o que ocorreu em primeiro de junho, quando as autoridades chinesas, sem aviso prévio, limitaram novas instalações com tarifas atraentes, derrubando as ações da Jinko e algumas das suas contrapartes na China, e também as da First Solar, uma das maiores fornecedoras dos EUA.

Analistas calculam que projetos solares da ordem de 20 GW que deveriam ser implementados na China este ano serão anulados. À medida que a demanda recua, os preços dos painéis chineses devem cair em pelo menos um terço. Para Benjamin Attia, da Wood Mackenzie, consultora de energia, dependendo do quão rápido a queda vai incentivar a adoção da energia solar em novos mercados, este pode ser o primeiro ano desde 2000 que o setor global de energia solar sofre uma paralisia.

As restrições foram adotadas numa época em que a fonte solar de energia se torna cada vez mais capaz de competir de igual para igual, em termos de preço, com fontes mais convencionais, como o carvão, o gás natural e a nuclear. Países na Europa, incluindo Grã-Bretanha e Espanha, e em outros lugares também, reduziram drasticamente as FITs. O que suscita uma questão complicada e importante: chegamos ao fim da linha quanto aos subsídios no campo da energia solar?

A China oferece uma ilustração provável. As FITs podem desaparecer, mas outros subsídios alternativos ocuparão seu lugar. Segundo analistas, a decisão chinesa foi tomada após um aumento de US$ 15 bilhões, no ano passado, do déficit do fundo de subsídios reservado para os desenvolvedores. Cobrir a diferença sobrecarregaria os cofres públicos. 

Paolo Frankl, da Agência Internacional de Energia, diz que a China iniciou um experimento por meio de um programa chamado “Top Runner”, como alternativa às FITs e que começa a se tornar popular. É um leilão reverso (no caso, a empresa interessada na compra diz o que deseja adquirir e convida outros fornecedores para que ofereçam um lance). O preço oferecido é o cobrado nos contratos de compra de energia de longo prazo (PPAs) da eletricidade gerada. 

Esses leilões tiveram propostas com valores baixos em locais com muito sol, dos EUA ao México, Abu Dhabi à Índia. Mas, na China, esses PPAs superaram as FITs. Daí o objetivo da China de incentivar mais esses leilões livres de subsídios. 

Expectativa. Contudo alguns duvidam que as PPAs sejam melhores que as FITs e há um intenso debate se eles são um tipo de subsídio que poderia distorcer o mercado. É difícil hoje, na China e em outros lugares, construir usina elétrica sem respaldo público. As medidas adotadas pela China podem tornar o setor global mais robusto com o tempo. 

Os especialistas do setor esperam que essa montanha-russa se encerre, mas isso deve demorar um bom tempo./TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINHO 

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