Maximkostenko/iStock
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Indústria da tecnologia aposta em freelancers

Autônomos ganham espaço no mercado e sindicatos brigam para definir os direitos desses trabalhadores cada vez mais frequentes

Lydia Depillis, The Washington Post

07 Fevereiro 2015 | 09h25

WASHINGTON - Agora que trabalha por conta própria como técnico de rede, Robert Wooldridge às vezes consegue levar sua filha de oito anos para o trabalho, uma vez que ele gira por toda a área de Washington. Hoje, em vez de trabalhar das 9h às 17h em uma corporação, ele é seu próprio patrão.

Desde que perdeu o emprego em que ganhava US$ 102 mil por ano numa grande empresa da área da saúde, Robert presta serviços de computação, resolvendo avarias para um punhado de clientes.

Hoje o trabalho como freelancer é muito mais cômodo do que costumava ser: em vez de bater perna em busca de serviço, Robert colocou seu próprio perfil em vários websites que contratam trabalho especializado. Candidatou-se a alguns trabalhos oferecidos por empresas em postagens e achou um "bico" no primeiro dia de busca.

Logo depois, a exceção passou a se tornar norma. Cada vez mais as empresas vêm transferindo partes do seu trabalho para trabalhadores autônomos, conseguindo um grande número de pessoas disponíveis para trabalhos que necessitam, desde suporte de tecnologia até paisagismo.

Com isso, as empresas não têm obrigação de pagar ao funcionário um salário fixo mensal - sem mencionar os gastos com plano de saúde, previdência social ou indenizações.

É difícil saber quantas empresas estão seguindo nesta direção ou mesmo o quão rápido isto vem ocorrendo. O número de pessoas que trabalham autonomamente em termos de porcentagem da mão de obra permaneceu constante por décadas, em torno de 10%.

Muito dinheiro vem sendo investido em startups que estão competindo para facilitar a transição e lucrar com isso. É o caso da Work Market, plataforma onde Robert encontra a maior parte dos seus trabalhos. A Work Market levantou US$ 20 milhões com importantes investidores, incluindo Fred Wilson diretor da Union Square Ventures, segundo o qual a plataforma tem potencial para "transformar a maneira de as empresas utilizarem a 'economia do trabalho sob encomenda'". Ou seja: as empresas economizam dinheiro usando freelancers e a Work Market fica com uma parte dessas economias.

A consequência, por outro lado, é que os trabalhadores ganham menos nesse contexto. Wooldridge calcula que deva ganhar cerca de US$ 75 mil brutos no seu primeiro ano.

Exploração. A mudança na direção de uma "economia sob demanda", como os capitalistas de risco a qualificam, vem ocorrendo tanto no caso de salários mais altos como no caso dos mais baixos - e isso pode ser analisado sob vários aspectos.

O primeiro é que os empregadores estão explorando os trabalhadores que recebem baixos salários, como empregados domésticos ou da construção, classificando-os ilegalmente como trabalhadores autônomos e deixando o empregado sem as proteções e os benefícios que teriam como funcionário contratado.

O Departamento do Trabalho tenta reprimir essa tática, que também trapaceia o governo nas folhas de pagamento. Algumas companhias como a do aplicativo Uber, e a "plataforma" de limpeza Handy, estão sendo processadas por seus próprios prestadores de serviços por classifica-los impropriamente como trabalhadores autônomos quando eles não têm a liberdade que esta condição ofereceria.

Vantagens. Outra maneira de pensar nessa "economia sob encomenda" é que ela libera os profissionais para estabelecerem seus próprios horários e remuneração, o que lhes permite aumentar a clientela e ganhar mais. É o caso da Thumbtack, que conecta os consumidores a prestadores que oferecem serviços mais especializados como reforma de cozinha, fotos de casamento ou de personal trainer. Os prestadores são legitimamente independentes - mas, sem o Thumbtack, gastariam mais tempo e dinheiro para encontrar trabalho nos anúncios do Google, ou por meio de cartões de visita, etc.

E depois temos um vasto campo intermediário: dos empregados tradicionais que podem se transformar em prestadores de serviços independentes. Neste caso, a empresa paga o funcionário somente quando ela tem trabalho em vez de mantê-lo na folha de pagamento o ano inteiro.

"Seja uma pequena butique de roupas ou o Walmart, você vai preferir acabar com os custos fixos e arcar somente com os custos variáveis onde for possível", diz o diretor executivo da Work market, Stephen DeWitt. "Agora terá a oportunidade de fazer isto."

A Work Market tem alguns métodos diferentes para gerar receita. As empresas podem postar empregos ocasionais e a Work Market fica com 10% do valor da transação. Se conseguirem aumentar substancialmente seus negócios na plataforma, as empresas podem pagar uma taxa de serviços mensal fixa.

Segundo DeWitt, a Work market facilita a mudança para um modelo de emprego cada vez mais popular à medida que as empresas procuram eliminar as ineficiências dos contratos de trabalho. No futuro, diz ele, seremos apenas uma "persona" que atrai trabalho de diferentes fontes com base na lei da oferta e da procura.

O mundo que vemos é aquele em que todos fazem parte de um 'mercado de trabalho'. Um ovo tem um mercado em torno dele. Uma planta tem um mercado à sua volta. Todo mundo tem uma "persona" que precisa ser vista por uma empresa que esteja em busca desta "persona".

Se não é possível frear essa tendência, como cuidar melhor do "precariado" (como às vezes é chamada essa categoria)?

De acordo com Sara Horowitz, do Sindicato dos Freelancers, um de vários grupos surgidos recentemente para ocupar o lugar dos sindicatos tradicionais, o emprego fixo de hoje em dia está longe de ser uma maravilha, com menos benefícios e salários menores.

Embora acredite que ferramentas como Work Market são positivas, Sara afirma que se faz necessária a criação de políticas governamentais que ajudem esta nova classe média, composta de profissionais independentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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