'Indústria de autopeças está em decadência'

Dos bons tempos de forte demanda e economia aquecida, restaram um amontoado de dívidas e equipamentos ociosos. Em meados dos anos 2000, motivado pelo bom desempenho da atividade econômica, o empresário Dimas Francisco Zanon se endividou, comprou máquinas novas e dobrou a produção da sua Difran. A empresa, fundada em 1985, entrou em franca expansão: até 2008, produzia 300 mil peças por dia e empregava 420 funcionários.

Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2014 | 18h00

Mas, no meio do caminho, a crise internacional atingiu em cheio os negócios de Zanon. A indústria de autopeças começou a ratear. Em 2010 e 2011, tiveram uma pequena reação a reboque dos incentivos do governo dado às montadoras. De lá pra cá, no entanto, as notícias não têm sido positivas. "A indústria de autopeças está em decadência, num processo de desindustrialização", diz o empresário.

Atualmente, a Difran tem 130 trabalhadores e está na iminência de fazer mais um corte de funcionários. Pior: está inadimplente no mercado por causa de investimentos feitos no passado. "Estou num processo torturante de negociação das dívidas com os bancos. Estou entregando imóveis e máquinas para quitar parte dos débitos. Mantemos a empresa aberta pagando todos os impostos, que não são poucos."

A empresa, que produzia 300 mil peças por mês, hoje fabrica no máximo 100 mil unidades. Além de cortar 69% do quadro de funcionários em relação a 2008, a Difran trabalha com apenas 30% da capacidade instalada. "Antes, trabalhávamos em quatro turnos, durante 24 horas. Agora, só tenho dois turnos e não são completos."

Zanon atribui boa parte dos problemas da indústria de autopeças ao elevado custo Brasil e à "nefasta" política cambial do País, que tira a competitividade do produto nacional e abre espaço para peças vindas do exterior, especialmente da China. "No momento, não vejo muita solução para o setor, pois nossa política econômica é ineficiente. Não há uma política industrial, um incentivo, uma correção cambial para, pelo menos, bloquear o produto de fora ou para dar um pouco mais competitividade à indústria nacional.".

Como a Difran, outras empresas do setor de autopeças sentem os efeitos do desaquecimento do setor. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), o déficit este ano deverá ficar entre US$ 10,5 bilhões e US$ 11 bilhões, um recorde para o setor. "Temos uma balança comercial para o segmento de autopeças bastante negativa", afirma Paulo Butori, presidente da entidade. Em 2006, o setor era superavitário em US$ 2 bilhões.

Para o empresário Marcos Liron, fundador da Quantum Tecnologia, em São Bernardo, a desaceleração do setor não trouxe tantas perdas. Em momento de crise, diz ele, as pessoas tendem a comprar carros menos equipados, o que abre espaço para o seu negócio que comercializa alarmes, entre outros produtos. "Estaria melhor se tivesse bombando, mas não estou sentindo tanto essa crise", afirma. A perda tem sido por outro motivo: com a alta no custo de produção, ele não consegue repassar o aumento. O resultado foi uma queda de 20% nas margens de lucro em três anos.

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